O fermento da sociedade

Quando, no início de Fevereiro, Gouveia e Melo assumiu o cargo de coordenador da task force da vacinação anti-covid, Portugal ocupava a nada invejável posição cimeira, a nível mundial, no número diário de novos casos da doença. Sete meses depois, e apesar da pandemia estar ainda longe de debelada, o primeiro lugar que ocupamos é bem diferente: o de país do mundo com maior taxa de vacinação contra a covid-19.

Este sucesso resulta naturalmente de um trabalho colectivo de milhares de profissionais espalhados por todo o país. Modesto e focado na sua missão, o vice-almirante que muitos querem transformar em herói improvável é o primeiro a recusar elogios e honrarias. Distribui o mérito por todos, numa atitude que só o dignifica e que, por se estar a tornar cada vez menos frequente entre as figuras públicas a quem a fama ou o poder sobem à cabeça, aumenta o respeito e a admiração que a grande maioria dos portugueses sentem por Gouveia e Melo.

Na verdade, a competência com que a task force vem executando a sua missão salta à vista naquela que é talvez a operação de saúde pública mais escrutinada de sempre. Se a nossa gestão pública e privada estivesse ao nível que Gouveia e Melo imprimiu ao seu grupo de trabalho, Portugal poderia ser um país muito melhor para os seus cidadãos. Má gestão e fracas lideranças continuam a ser os nossos calcanhares de Aquiles. E esta é, parece-me, uma das grandes lições que nos ficam da pandemia.

Pois não será apenas a eficácia e rapidez do processo de vacinação coordenado por Gouveia e Melo e pela equipa de que se soube rodear, que os portugueses valorizam. Compare-se a liderança serena, a confiança que sempre transmitiu aos subordinados e à população, a autoridade que se afirma pelo exemplo, com a atitude da ministra tresloucada que um dia destes irrompeu aos gritos por uma Loja do Cidadão a destratar os funcionários. Uma ministra que confunde autoridade com autoritarismo e a quem parece faltar noção e, sobretudo, educação. Apesar de também já ter passado, enquanto secretária de Estado no anterior governo, pelo ministério da dita cuja.

Ainda no capítulo da Educação, foi anteontem que, em visita à escola secundária onde estudou, em Viseu, o coordenador da task force se dirigiu-se aos professores que o receberam, salientando o papel fundamental que têm na formação das novas gerações. Se os jovens são a farinha que se transformará em pão, os professores serão o fermento que os faz crescer e desenvolver em toda a plenitude. Uma analogia feliz e oportuna, num tempo em que a lógica das políticas educativas e dos interesses dos mercados vai insidiosamente atacando o profissionalismo docente.

…vim encontrar paz aqui, neste Liceu. Essa paz foi-me transmitida, muito pelos professores e é isso que vos quero dizer enquanto professores. Os senhores são o verdadeiro fermento da evolução, a farinha são os alunos”, comparou por entre aplausos.

Gouveia e Melo disse aos professores que, apesar de acabarem por recordar três ou quatro alunos, “os alunos lembram-se de todos” os professores.

“O vosso exemplo de ética, de paciência, a estrutura que nos conferem, quando somos jovens, ajudando na educação que temos em casa e completando essa educação de casa. Os senhores são dos fatores mais relevantes da sociedade e devem ter orgulho disso e sentirem isso”, sublinhou.

O vice-almirante deu o seu exemplo de quando o questionam sobre a sua escolha profissional, lembrando que “discutem-se ordenados e isso”, mas “só queria ser militar para sentir que fazia parte de um processo e que tinha um papel relevante nesse processo”.

“Os senhores têm esse papel. São muito úteis e são a levedura do futuro desta sociedade. A educação é o futuro de qualquer sociedade e basta olhar para a história e perceber isso”, apontou.

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