ADSE versus hospitais privados

Eugénio Rosa, economista e representante dos beneficiários no conselho diretivo da ADSE, acusa os grandes grupos privados que na semana passada anunciaram novas tabelas de preços – para as consultas, cirurgias e exames que pretendem retirar das convenções com a ADSE – de estarem a levar a cabo uma estratégia para fugir a preços controlados, “criar um regime livre paralelo para os beneficiários da ADSE e destruir o regime convencionado”.

Numa análise divulgada este fim de semana, depois da entrada em vigor das novas tabelas de preços da ADSE que levaram para já o grupo Luz Saúde, o grupo CUF e o grupo Lusíadas a anunciar novas tabelas e o corte de algumas consultas, cirurgias, exames (dependendo de médicos e da especialidade) e partos (estes no caso da CUF e da Luz e a partir de 1 de janeiro de 2022), o economista torna públicos alguns dados que a ADSE só tinha divulgado parcialmente.

Na semana passada, o organismo indicara que, com os novos preços, tinha havido 80 mil pedidos de associação de procedimentos ao regime convencionado da ADSE e apenas 10 mil pedidos de dissociação. Eugénio Rosa revela que os grandes grupos privados pediram igualmente para associar atos às convenções. “Por exemplo, o grupo CUF já pediu a associação de 4980 a atos e pede insistentemente que a ADSE assine convenção com a CUF Tejo pois a ADSE autorizou, transitoriamente devido à pandemia, que faturasse através da CUF Infante Santo. O grupo Luz Saúde pediu a associação de 6770 atos médicos, sendo 2800 atos referentes ao Hospital de Vila Real que não tem convenção (…) Dizer que os grandes grupos de saúde se recusaram a assinar convenções com a ADSE é totalmente falso e visa claramente criar insegurança e instabilidade nos beneficiários”, argumenta.

Eugénio Rosa, o nosso homem na direcção da ADSE, desmonta a mais recente polémica entre os hospitais privados e a ADSE, resultado de uma estratégia que, da parte dos grandes grupos da saúde privada, já não é nova. Eles estão interessados na vasta clientela que a ADSE representa: mais de um milhão de beneficiários a usarem os seus serviços são altamente apetecíveis e, nalguns casos, determinantes para a rentabilidade dos investimentos feitos nos últimos anos. No entanto, não se dispõem a contratualizar um serviço convencionado universal: querem celebrar convenções para atrair doentes, mas depois de estes estarem fidelizados começam a aplicar-lhes o regime livre num número crescente de consultas e tratamentos.

Como digo, isto não é novo, e julgo que já praticamente todos os utentes que recorrem aos hospitais da Luz ou da CUF passaram pela situação de, ao tentarem marcar uma consulta pela ADSE, serem informados de que aquele médico ou especialidade em concreto não se encontram abrangidos. Em contrapartida, acrescentam, temos aqui uma tabela de preços especiais, especialmente para si…

Para resolver este problema, não vamos lá com falinhas mansas, nem mostrando hesitação ou fraqueza, como se viu há dias na intervenção pública da presidente, a jurista Manuela Pastor, antiga directora-geral da DGEstE. Estes grupos da saúde privada são gananciosos, não brincam em serviço e prestam contas aos investidores estrangeiros que vêm dominando o seu capital social. Há que negociar com igual determinação, procurando estabelecer uma tabela coerente de preços justos e actualizados para os actos médicos. Mas não aceitando a jogada desonesta de pretender estar na rede convencionada da ADSE com um pé dentro e outro fora.

O que nos leva a uma questão incómoda: haverá, entre os perfis eminentemente técnicos que povoam os órgãos sociais da ADSE, os negociadores inteligentes, determinados e assertivos que a situação exige?

5 thoughts on “ADSE versus hospitais privados

  1. Recebi da ADSE cerca de 500 páginas sobre os novos preços a praticar. Li por alto mas vou tentar ler com mais atenção.
    Faz bem Eugénio Rosa em alertar para o problema que os privados possam criar com esse tal de regime paralelo para os beneficiários da ADSE. O objectivo é mesmo o de facturar cada vez mais em roda mais livre.
    Isto vai criar uma grande confusão que, aliás, já começou.
    Tivéssemos nós um investimento no SNS de modo a torná-lo naquilo que deve ser, e as coisas não se passariam assim.

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  2. A ter em atenção:

    “o economista deixa um conselho aos beneficiários para “não serem enganados”: na hora da marcação, perguntar se o ato ou exame é feito no âmbito da convenção do grupo com a ADSE ou não. “Se não for, procurem outro prestador que tenha convenção com a ADSE”, recomenda.”

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    • Exactamente, se todos os beneficiários recusarem as tais consultas não comparticipadas e procurarem outros prestadores estarão a frustrar os intentos gananciosos dos grandes grupos da saúde privada.

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  3. “Tivéssemos nós um investimento no SNS de modo a torná-lo naquilo que deve ser, e as coisas não se passariam assim.”
    Acima, a frase que achei mais interessante:
    Abriram a porta do galinheiro e agora queixam-se das raposas: São anedotas ou estão(comem) com as raposas.

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  4. os grupos privados de saúde usam a vantagem de acabarem com a convenção se quiserem, sendo uma chantagem sobre os utentes e o SNS, porque em último caso esses utentes recorrerão ao SNS, sabendo que os maiores perdedores serão sempre os utentes.
    A equação é simples: não podendo pagar o que pedem, recorre-se ao SNS, com os condicionalismos que todos conhecem.

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