Pedagogia não rima com ideologia

Embora as palavras terminem com a mesma sílaba, os conceitos não rimam. Por isso, ao contrário do que pouco avisadamente se vai fazendo, não se deveriam misturar.

O conhecimento humano evolui, e isso determina naturalmente que os programas escolares acompanhem essa evolução, não permanecendo imutáveis. Mas as mudanças necessárias são as que decorrem do desenvolvimento das ciências, das artes e das humanidades, não da tentativa de imposição de quaisquer ideologias políticas.

Quanto à pedagogia, bom, onde ela deve reinar é nas salas de aula, não nos normativos ministeriais ou em programas disciplinares excessivamente prescritivos. Não é aceitável que se esteja a querer instituir uma espécie de pedagogia do regime, banindo metodologias abusivamente consideradas ultrapassadas enquanto se promovem modas pedagógicas a que não chamarei inúteis, mas que seguramente têm validade e alcance limitados e duvidosos.

Embora disfarçada por conceitos como autonomia ou flexibilidade, há uma profunda desconfiança no trabalho dos professores e das escolas, que se nota tanto nas metas curriculares de Nuno Crato como nas aprendizagens essenciais do actual ME, que escondem mal a ilusão perigosa do facilitismo e de programas mínimos.

Tudo isto é desenvolvido e muito bem explicado pelo Paulo Prudêncio no Público, uma leitura e correspondente reflexão que recomendo neste regresso de férias.

…enquanto os humanos forem os professores haverá genética e ambiente cultural a influenciar estilos de ensino. Até nas ditaduras é difícil generalizar o modelo de professor, uma vez que há estilos intemporais, e transmissões subliminares, na leccionação: directividade para que os alunos ouçam; pequenas ou grandes formações na organização por grupos; e resolução de problemas, atribuição de tarefas ou descoberta guiada, na procura de soluções.

Por isso, não é sabedor misturar docimologia e técnicas de ensino com ideologias. As primeiras são, a par do conhecimento científico, a essência da profissionalidade. Se é evidente que a educação nas democracias prevê disputa ideológica e detalhes na escolha dos programas, a história comprova que a sua consolidação exige a progressão sustentada das ideias.

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