Licenciatura em 6 meses

Obter, sendo licenciado, uma segunda licenciatura em apenas 6 meses: julgo que ainda não se consegue por cá, a não ser em situações muito excepcionais, mas no Brasil tornou-se algo corriqueiro. Uma segunda licenciatura permite concorrer a mais vagas e aumentar as oportunidades de colocação dos professores. Ávidas de alunos, as universidades e escolas superiores fazem o jeito, recorrendo a um truque antigo e bem conhecido: trata-se de usar as famosas equivalências para dispensar os estudantes da maioria das disciplinas do curso, reduzindo-o assim à duração mínima de um semestre.

Vendo as coisas como elas são, percebe-se que este é o corolário lógico de um ensino cada vez mais assente no estudo superficial de tópicos – agora chamados aprendizagens essenciais – em vez de uma base estruturada de conhecimentos. Em transdisciplinaridades – campo em todos sabemos de tudo, porque “está tudo na internet” – em vez da especialização disciplinar. E em competências instrumentais substituindo o conhecimento sólido, estruturado e base de autonomia, do espírito crítico e de novas aprendizagens.

O desinvestimento na formação de professores é uma demonstração evidente da degradação das políticas educativas que a OCDE, o Banco Mundial e as multinacionais estão a impor à escala global. Só um sistema educativo pouco ou nada exigente aceita formar professores especializados em apenas seis meses, a quem a acumulação de cursos apenas facilitará que sejam, nas escolas, pau para toda a obra. Trabalhadores docentes precários e mal pagos, contratados e descartados ao sabor das necessidades e dos caprichos dos dirigentes educativos.

2 thoughts on “Licenciatura em 6 meses

  1. Caro Professor
    A situação não se deve restringir ao Brasil. Veja o que disse o Ministro da Ciência e Ensino Superior na marcante entrevista que deu ao Expresso de 2 de Julho passado: “Não há razão para que um mestrado em Portugal demore dois anos e os ingleses ou os holandeses façam em 9 meses. Temos de ter a mesma competitividade. Mas reduzir o número de horas letivas não é uma questão administrativa; implica mudar o conteúdo e a forma como se dá as aulas.”
    Logo, mais ano menos ano, termos licenciaturas e mestrados em menos de um ano e doutoramentos… num ano?!
    Votos de boas férias;
    MHDamião

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    • O sistema de Bolonha já aligeirou bastante os cursos superiores, mas aparentemente ainda há margem para ir mais além. É a aplicação criativa do velho princípio matemático de que menos com menos dá mais.
      Boas férias, cara Maria Helena!

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