Uma decisão incompreensível

A Direção-Geral da Saúde (DGS) esclareceu hoje que a vacinação de crianças com idades entre 12 e 15 anos sem doenças tem de ter prescrição médica, não bastando a vontade dos pais, como defendeu o Presidente.

Num esclarecimento hoje enviado à agência Lusa, a DGS considera, depois de ouvida a comissão técnica de vacinação contra a covid-19, que “deve ser dada a possibilidade de acesso à vacinação a qualquer adolescente com 12-15 anos por indicação médica”.

No sábado, o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, afirmou que as autoridades de saúde não proibiram a vacinação contra a covid-19 para crianças saudáveis, considerando que “esse espaço continua aberto à livre escolha dos pais”.

Pelo menos por enquanto, a vontade dos pais não é suficiente para que a população com idades entre 12 e 15 anos e sem doenças seja automaticamente imunizada, embora isso possa ser conseguido caso o médico avance com uma prescrição.

É sempre ingrato questionar as decisões das autoridades de saúde, certamente na posse de informação técnica e experiência profissional de que os leigos na matéria, como é o meu caso, não dispõem.

Ainda assim já tivemos, em momentos críticos da actual pandemia, ocasiões em que a intuição dos responsáveis políticos ou mesmo de uma grande parte dos cidadãos se revelou mais acertada do que as ponderadas e avalizadas recomendações dos “peritos”. Ora é com essa percepção, e com o saber de experiência feito que um ano e meio de crise pandémica nos deu a todos, que vejo neste abrandamento na dinâmica da vacinação um passo atrás na luta contra a pandemia.

Claro que, na perspectiva infantocêntrica cada vez mais presente na vida social e familiar, é simples justificar o adiamento da vacinação anticovid dos mais novos. Raramente adoecem e quando isso sucede os sintomas são geralmente ligeiros. E como os mais velhos estão vacinados, a possibilidade de serem contagiados com gravidade pelos filhos ou netos é muito reduzida. Assim sendo, para quê incomodar as “crianças” de 13 ou 14 anos com uma incómoda “pica” e uma ida “secante” ao centro de vacinação?

A questão é que não nos defrontamos com um mero problema de bem-estar infantil ou juvenil. Estamos perante o que é, até agora, o maior problema de saúde pública do século XXI. E embora ainda não saibamos tudo sobre a covid-19, há algumas certezas, ainda que provisórias, que podemos ter. Uma é que as vacinas são, a par do uso das máscaras, as mais eficazes medidas para conter a pandemia. Mas nem uma nem outra têm eficácia total, pelo que é necessário continuar a usar máscara em determinadas situações e alargar ao máximo a vacinação da população. Também sabemos que as vacinas são seguras e algumas estão internacionalmente aprovadas para aplicação em menores a partir dos 12 anos.

Assim sendo, o que se ganha em complicar o acesso à vacina, obrigando os pais que querem vacinar os filhos a ir à em busca do atestado médico que o permitirá fazer? Em fomentar hesitação e insegurança na vacinação dos sub-16, depois dos esforço hercúleo que vem sendo feito por todos os envolvidos no processo? Em começar o novo ano lectivo com a grande maioria dos alunos por vacinar, quando está ao nosso alcance fazê-lo atempadamente?

Há realmente vontade de debelar a pandemia e virar esta página negra ou vamos, em vez de tomar medidas corajosas e decididas, adiar decisões e ficar à espera de milagres? Numa guerra que dura há demasiado tempo, e quando estamos finalmente em condições de dar o golpe de misericórdia ao inimigo, permitiremos que se recomponha para uma quinta vaga?…

3 thoughts on “Uma decisão incompreensível

  1. As vacinas têm riscos que a longo prazo se desconhecem e aos quais não devemos expor desnecessariamente as crianças.

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    • Um argumento recorrente que me deixa perplexo.
      Desde sempre se vacinam crianças saudáveis, precisamente para que assim se conservem e não desenvolvam doenças potencialmente danosas ou até fatais para elas ou para os que lhes estão próximos.
      Aliás, basta espreitar o plano nacional de vacinação para confirmar que a maioria das vacinas são dadas logo nos primeiros dias de vida a todas as crianças, sem que isso interfira com a sua saúde ou normal desenvolvimento.
      A faixa etária dos 10-19 anos já é a segunda maior em termos de incidência da covid-19. Com a vacinação dos 20-29 em breve serão eles os principais transmissores da doença. Vamos enfrentar o problema e vacinar a tempo, ou esperar pelo começo das aulas e a intensificação dos contactos entre adolescentes para que se confirme o agravamento dos contágios?…

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  2. Eu creio que estamos num problema semelhante ao inicio da pandemia, quando se dizia que não era necessário usar máscaras, principalmente porque não haviam máscaras suficientes disponíveis. Creio que estaremos com escassez de vacinas, e por isso não se avança para a vacinação das crianças. Mais político que científico.

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