Ouvir a voz dos alunos

Ouvir e considerar as opiniões dos/as alunos/as não tem sido uma preocupação frequente entre os profissionais de educação. Nas suas formas mais tradicionais, a escola desenvolveu uma cultura de transmissão de conhecimentos de sentido único: da escola para os alunos/as, com reduzidas possibilidades de acolher as suas intervenções. Ouvir as crianças e os jovens sobre as suas próprias aprendizagens, e genericamente sobre todo o processo educativo, tem sido considerado, na educação tradicional, um procedimento inadequado. A criança é vista como um recetor e um ser humano por vir, ainda desprovido de responsabilidade, de capacidade de decisão e de conhecimento suficiente sobre o mundo. Perante esta conceção de criança, a escola organiza-se como uma estrutura que assume a missão de transmitir conhecimentos e valores, na convicção de que venha mais tarde, então adulta, a poder emitir opiniões e a ser responsável pelos seus atos.

Ouvir a voz dos alunos está a tornar-se o novo mantra educativo dos pedagogos do regime. O SE Costa já anda com essa conversa há algum tempo, e o Conselho Nacional de Educação veio agora reforçar a ideia que urge encasquetar nas mentes dos professores portugueses. Num texto longo e repetitivo, diria mesmo obssessivo, o grupo de conselheiros redactores culpa os docentes por não ouvirem os alunos, nem terem em conta as suas ideias e opiniões no planeamento e na prática lectiva.

Pela minha parte, tenho alguma dificuldade em aceitar o tom sentencioso dos doutores eduqueses que sempre evitaram as salas de aula onde poderiam ouvir todos os dias “a voz dos alunos”, nunca as tendo frequentado ou, quando não conseguiram escapar à fatalidade, fugindo assim que puderam para as suas torres de marfim nas academias, nos gabinetes ministeriais e nas escolas superiores de educação.

Em mais de trinta anos de profissão docente, nunca deixei de ouvir as vozes dos meus alunos – só agora experimento algumas dificuldades, por causa do uso da máscara, que torna os sons menos perceptíveis – e apenas exijo algo que talvez esteja a ficar fora de moda na informalidade dos novos tempos, que é falarem cada um na sua vez. De resto, sou todo ouvidos, e tomara eu que a maioria dos meus alunos ouvissem os seus pares com a mesma atenção que eu dedico a cada um deles quando usa da palavra.

Mas recuso-me a embarcar em relativismos pseudo-democráticos. Uma opinião infundada não pode ser considerada no mesmo plano de um facto comprovado. A intervenção ponderada de um aluno que estudou e reflectiu não vale o mesmo do que um disparate proferido à mesma velocidade com que nos passa pela cabeça. Uma pergunta de quem quer saber mais ou compreender melhor não está ao mesmo nível de uma afirmação movida pela ignorância ou o preconceito. Mas claro que todas estas intervenções podem ser oportunidades de aprendizagem e como tal devem ser trabalhadas e não ignoradas. Mas é para isso mesmo que nós, os professores, sempre lá estivemos.

E sim, os alunos estão na escola para adquirir conhecimento. Desistir de lhes ensinar tudo o que são capazes de aprender, sob o pretexto de que os seus saberes são tão válidos como os de quem estudou para lhes ensinar, seria o maior crime que poderíamos cometer contra os nossos alunos. Ao contrário do que sugerem os defensores mais radicais do construtivismo, nenhuma geração humana construiu, sozinha, o seu próprio conhecimento. Pelo contrário, beneficiou do imenso capital de conhecimento e experiência acumulado e transmitido pelas gerações que a antecederam. A aprendizagem formal, que a escola pública permitiu universalizar, é comprovadamente o meio mais eficaz de democratizar o conhecimento e acelerar o progresso da humanidade.

Estas são reflexões nada estranhas ao quotidiano de qualquer professor, mas que passam ao lado do longo relambório que o CNE aprovou e fez publicar em Diário da República. Um extraterrestre que chegasse agora ao nosso planeta e conseguisse decifrar a Recomendação 2/2021 ficaria certamente a imaginar os professores portugueses como seres cavernícolas, uns brutos insensíveis que vão para as aulas despejar matéria sem permitir que os alunos abram a boca, encarando os jovens cérebros como arcas vazias que precisam de ser atulhadas de conhecimento.

Lá para o final, há um excerto significativo que se torna revelador. É quando recomendam mudanças na formação de professores, no sentido de que as aulas deixem de ser meramente expositivas e permitam o diálogo entre docentes e discentes. Ora isto é o que os professores do básico e do secundário, de um modo geral, sempre fizeram! Pelo que ouso pensar que, antes de invectivar à mudança os docentes que consideram inferiores, talvez os doutores eduqueses da faculdade ganhassem em começar por questionar e melhorar as suas próprias práticas lectivas.

3 thoughts on “Ouvir a voz dos alunos

  1. E em 2021 temos um texto de recomendações produzido pelo CNE sobre o dar a voz aos alunos que seria altamente progressista há 50 ou mais anos atrás- os alunos meros receptáculos de um ensino tradicional onde não há comunicação, onde só o professor tem o poder da palavra. Para dar crédito a estas recomendações, entremeia-se com citações de estudos vários e relatórios que clamam pela voz do aluno na escola e sala de aula. Até Paulo Freire vão buscar.
    Estamos tramados com estes intelectuais das ciências da educação. Ficaram presos no tempo e nas circunstâncias desse tempo passado. Redigem recomendações que não têm a ver com a realidade. E assim, um texto destes torna-se ridículo.

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  2. Ao longo de quase duas décadas, tenho ouvido os alunos. E o que uma boa parte deles diz é o que ouve em casa, no café, no grupo de amigos, nas redes sociais… Belas ideias sobre os ciganos, imigrantes, refugiados, desempregados, beneficiários do RSI, etc. O problema não está em não terem as ideias certas, mas em não terem ideias críticas, minimamente sustentadas, nem serem capazes de discutir ou procurar conhecimento… De resto, e como o Pacheco Pereira nota, ao falar do que apelida, com felicidade a meu ver, “de nova ignorância”, as opiniões que tanto se tem por aí não costumam desenvolver-se a respeito de temas como a matemática, a física atómica, etc. É que sobre os objectos destas ciências a ignorância é tal que nem à ignorância do preconceito se chega.
    A liberdade de opinião é um valor político, não é um valor epistemológico. A livre discussão RACIONAL é que é um valor epistemológico.

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