Falhanço dos TEIP?

É o mais importante e duradouro programa de apoio a escolas inseridas em meios economicamente desfavorecidos, onde o número elevado de alunos em risco de exclusão social e escolar justifica medidas de discriminação positiva, como a atribuição de mais professores e técnicos, recursos materiais e autonomia. Mas, apesar destes reforços, um dos principais objetivos deste programa de intervenção sobre os chamados “territórios educativos de intervenção prioritária” (TEIP) não tem sido alcançado: ao fim de 14 anos, os resultados dos alunos das escolas de ensino secundário apoiadas não só não se aproximaram das notas dos colegas da maioria das escolas públicas como até divergiram um pouco.

A conclusão resulta de um estudo de doutoramento realizado por Hélder Ferraz, orientado pelos professores da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto Tiago Neves e Gil Nata, ambos com trabalho de investigação nesta área. A originalidade da tese prende-se com a abrangência da avaliação sobre o programa TEIP: o investigador analisou todas as classificações internas (dadas pelos professores) e notas de exames atribuídas entre 2001/2002 e 2014/2015 (mais de 4 milhões de classificações do secundário), acompanhando a evolução das escolas antes, nas várias fases do programa, e em comparação com os restantes estabelecimentos de ensino.

A tese de Hélder Ferraz ainda não está publicamente disponível, mas os dados divulgados têm pelo menos duas leituras diferentes. A mais óbvia é aquela em que a imprensa pega mais facilmente: apesar dos avultados investimentos nas escolas e agrupamentos TEIP, o fosso entre os resultados obtidos nestes “territórios educativos” e as restantes escolas continua a acentuar-se.

Quer isto dizer que foi dinheiro deitado à rua o que se gastou com o reforço de professores, psicólogos, terapeutas, animadores sociais, mediadores culturais e outros técnicos que estas escolas têm possibilidade de contratar? Não necessariamente, e isso leva-nos à outra interpretação possível da realidade do universo dos TEIP: se não fossem disponibilizados estes recursos suplementares, o insucesso, o abandono e a indisciplina seriam ainda maiores entre os alunos, maioritariamente desfavorecidos e frequentemente problemáticos, que os frequentam. Paradoxalmente, se temos piores resultados académicos do que há uma década, também é porque temos hoje nas escolas TEIP alunos que antes as abandonavam precocemente, não cumprindo sequer a escolaridade obrigatória.

Na verdade, e desde que se resista à tentação de falsear resultados, estes tenderão sempre a ser piores nas escolas TEIP. Por uma razão que deveria ser evidente: não é na escola, na sua organização ou nos seus recursos, que radicam as causas primordiais do insucesso, mas sim no ambiente social, cultural e familiar em que os seus alunos se integram. Por muito dinheiro que se despeje nas escolas, se não houver intervenção a montante, nas famílias desestruturadas, nos salários de miséria, no desemprego estrutural, na desvalorização da cultura escolar e noutros factores que afastam os alunos da escola ou que fazem do insucesso escolar o menor dos seus problemas, então nunca teremos na solução TEIP mais do que um paliativo do insucesso, da exclusão e do abandono escolar.

Uma última nota para sublinhar um ponto importante: o esforço de alfabetização e instrução em massa nunca produz resultados de forma imediata: perante minorias étnicas e sociais segregadas durante séculos, num país com um histórico de analfabetismo persistente que encontra poucos paralelos na Europa Ocidental, valorizar a cultura escolar e elevar as qualificações académicas da população de forma consistente é um trabalho, não de uma década, muito menos de uma legislatura, mas de várias gerações. É para ser feito de forma continuada e persistente, e não apenas na escola: combater eficazmente os factores de desigualdade e de exclusão que persistem na sociedade é condição essencial para o seu sucesso.

3 thoughts on “Falhanço dos TEIP?

  1. Muito boa análise, António Duarte.
    Destaco: “Paradoxalmente, se temos piores resultados académicos do que há uma década, também é porque temos hoje nas escolas TEIP alunos que antes as abandonavam precocemente, não cumprindo sequer a escolaridade obrigatória.”
    (será que a tese tem em conta esta variável?)
    E destaco também o último parágrafo.
    Ou seja, as mudanças não são para ser aplicadas de hoje para amanhã. É um trabalho de várias gerações feito com visão, análise constante e muito bom conhecimento do que está no terreno, tudo contrário ao que tem acontecido com cada um/a a querer deixar a sua “marca” na educação. E com tanta gente a fazer teses baseadas no senso comum e que acrescentam muito pouco na análise mais profunda dos problemas.

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    • Ola Antonio.
      Excelente análise.
      O programa TEIP tem sido um sucesso pelo menos no combate ao abandono precoce. Agora que todos os alunos estão na escola, é preciso mante-los e motiva-los para a aprendizagem. A aprendizagem não se reduz a resultados nos exames. É um equívoco.
      Como professora tenho orgulho em ter trabalhado numa escola TEIP, pelos resultados escolares, sociais dos alunos e pelo crescimento pessoal e profissional que todos os professores, funcionários, técnicos desenvolveram. Tenho orgulho em ser TEIP.

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