180 milhões para comprar computadores

O Governo vai comprar mais 600 mil computadores para as escolas, através de um concurso que foi lançado no âmbito do programa Escola Digital, com financiamento do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR).

“Foi lançado o concurso público internacional, repartido em vários lotes para poder ser mais fácil a sua entrega, para a aquisição de mais de cerca de 600 mil computadores, que poderá permitir a tão ambicionada universalização desta medida“, disse Tiago Brandão Rodrigues numa audição na Comissão de Educação, Ciência, Juventude e Desporto, na Assembleia da República.

O ministro da Educação sublinha que “num ano, vamos comprar mais de um milhão de computadores portáteis. É um gigantesco salto de escala e é um enorme desafio logístico”, afirmou na mesma ocasião.

Muito dinheiro para gastar, mas pouca organização, planeamento e definição de prioridades: é a sensação que fica perante os sucessivos anúncios das promessas e iniciativas do plano de transição digital.

Durante os confinamentos, lamentou-se a falta de meios informáticos de muitos alunos para acompanhar devidamente as aulas online. Mas as carências detectadas em 2020 não foram resolvidas por um ministério apanhado a dormir na formatura quando se decretou o segundo confinamento. Não só não fizeram o que lhes competia, como ainda se dedicaram a desvalorizar o esforço de alunos e professores, aproveitando todas as oportunidades para sublinhar a ineficácia do ensino à distância a garantir que só presencialmente é que se aprende. Um discurso contraditório com a converseta do conhecimento na palma da mão e do fim anunciado das aulas tradicionais.

Agora que, apesar da pandemia ainda não estar debelada, novos confinamentos gerais se mostram improváveis, assistimos a uma assinalável azáfama para dotar alunos e professores de computadores para uso pessoal, quando é na escola que estes irão fazer falta. Ou pensam que a generalidade dos alunos irá passar o dia de portátil às costas, quando para o uso passivo e recreativo que a maioria faz das novas tecnologias, o telemóvel lhes serve perfeitamente?

Há outra tendência que me parece preocupante, que é o descurar a necessidade de reequipar as salas de aula. Entre a sala despida de recursos, ou com PCs e projectores do tempo da Maria Cachucha, e os “laboratórios de educação digital” há um meio termo muito importante que passa por dotar todas as salas de equipamento fixo e renovar as infraestruturas de rede e acesso à internet. O sucesso do primeiro “choque tecnológico” passou essencialmente por aqui, e não pelos “Magalhães” que ao fim de pouco tempo estavam já arrumados e ultrapassados.

Infelizmente, nada disto é discutido com as escolas e os professores. Concede-se carta branca a uns quantos decisores e avaliam-se as necessidades actuais e futuras com base em percepções pessoais. E, claro, havendo dinheiro para gastar e clientelas à espera de receber, que ninguém se meta à frente a estragar os negócios. O resultado, sabemo-lo bem, costuma traduzir-se em dinheiro mal gasto e oportunidades perdidas.

2 thoughts on “180 milhões para comprar computadores

  1. Tão ou mais importante do que distribuir mais computadores por alunos e professores é, sem dúvida, manter as escolas bem equipadas com computadores, video projectores, colunas de som, cabos, écrans para projeção e, claro, bom acesso à internet.
    Quantas aulas ficam em stand by até se conseguir arranjar maneira de se começar a trabalhar. Quantos papéis são preenchidos a chamar a atenção para a falta de manutenção de tudo isto. Quantos sumários são preenchidos relatando o que se passou. E quantos planos de aula diversos são pensados em alternativa para quando estes requisitos não funcionam.
    Já para não falar no tempo perdido e na confusão da requisição deste material de uma semana para a outra.
    Tantas vezes, não se trata de falta de material; trata-se da sua falta de manutenção.
    Tantos professores a levar os seus portáteis e mais os cabos e mais as colunas de som e mais os videoprojectores…..inenarrável!
    “Estás sempre a protestar! Porque não trazes o teu portátil?”, perguntou-me a alta instância da escola.
    “Da mesma forma que o trabalhador da construção civil não leva a grua para o trabalho.”
    Resumindo: por vezes não é tanto o jorrar de computadores para dentro das escolas. É ter condições para o seu funcionamento rápido e eficaz.

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