Passei só com seis negativas!

Imagem daqui.

Tenho alguma dificuldade em alinhar no coro de críticas que tenho lido e ouvido a respeito dos alunos que passam de ano com muitas “negativas”.

É certo que a situação não é confortável para os professores nem para os alunos que se esforçaram para ter um bom aproveitamento. Poderá ser mesmo difícil de compreender para aqueles que verificam, surpresos, que passaram de ano apesar da carrada de “negas” que constam do registo de avaliação.

Mas esta situação justifica-se à luz do carácter excepcional das retenções nos anos intermédios de ciclo. Em vez de uma aplicação cega da regra contabilística que manda reter a partir de um certo número de níveis insatisfatórios, avaliam-se antes as vantagens pedagógicas da retenção para cada aluno em risco. E é essa avaliação caso a caso que pode determinar a passagem de ano.

Claro que o ideal é que os alunos passem de ano tendo aprendido. Mas quando isso não acontece e se percebe que a repetição de ano irá trazer ainda mais desmotivação e insucesso, a transição de ano acaba por ser uma alternativa a ponderar. Pedagogicamente, parecem-me mais correctas as passagens com as negativas na pauta, do que as votações de notas, que falseavam por completo a avaliação feita pelos professores. Em vez de notas fictícias que iludem o insucesso, o registo das notas atribuídas por cada docente não permite mistificações: fica a saber-se em que circunstâncias o aluno transitou e claramente sinalizado o trabalho de recuperação que terá de ser feito no ano seguinte.

8 thoughts on “Passei só com seis negativas!

  1. “VANTAGENS pedagógicas de retenção de cada aluno em risco”

    E como se determinar” isso” ?! Há um aparelhómetro? É a olhómetro ?
    Um aluno tem 6 negativas e passa (é “vantajoso” !! ) ; outro com as mesmas 6 negativas é retido ( vantajoso).
    Bizarra a decisão do “vantajoso” ou do “desvantajoso,” pelo seguinte: é que a “opiniâo” de cada docente do CT a esse respeito tem o mesmíssimo valor – tanto faz ser de Ed. Especial. ou Religiâo (que nem sequer os conhecem), como de ginástica, bordados, Matemática, Português, História, etc.
    . Há, É certo, a teoria do “pode ser que” lhe- faça- bem- passar- sem- saber (6 negas), a qual despontou ali pelos anos 80 e está ao rubro. A dita receita ,prescrita por qualquer ignorante, é hilariante .Mas hà quem a esgrima com um arzinho muito compenetrado. mesmo sem saber do que fala. Vale tudo !

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    • Cara Maria,

      Consegue ver vantagens em reter no 7º ano de escolaridade um rapaz de 15 anos? Eu, muito sinceramente não consigo. Nem para o repetente, nem para a turma que o vier a acolher.

      Ou um aluno a quem são diagnosticadas necessidades especiais e cujo insucesso é devido sobretudo a não terem sido aplicadas em devido tempo todas as medidas educativas necessárias? No ano seguinte, com os apoios e medidas a que tem direito, poderá ser bem sucedido, sem necessidade de passar mais um ano a marcar passo.

      Claro que há outas situações, em que temos a clara sensação de que o “chumbo” pode ser a resposta mais adequada a um aluno com algum potencial, mas que não se esforçou minimamente.

      Cada caso é um caso, e parece-me importante reforçar esta dimensão do conselho de turma, de ponderar e decidir caso a caso o que é mais adequado a cada aluno.

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      • Permito-me entrar nesta discussão a dois. A pergunta do primeiro parágrafo de AD encerra um pressuposto questionável. Não faz sentido falar da retenção ou não retenção apenas em termos do aluno. Uma vez que não temos, na sala de aula, um aluno, mas alunos, todos como elementos de uma (ou mais) turmas, importa perguntar que mensagem é passada para os colegas. E não refiro aos bons alunos. Refiro-me aos outros, aos que fazem os mínimos para terem a positiva. Mais uma vez: há problemas a montante da sala de aula e da escola, pelo que têm de ser encarados como problemas, não dos professores e da escola, mas da sociedade.

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        • Não é um tema fácil, e concordo que a maior parte do insucesso radica fora da escola, em factores sociais, culturais e familiares que transcendem a escola e que esta não consegue controlar. Mas a verdade é que existe hoje, bem ou mal, um amplo consenso social e político contra as retenções. Julgo que as escolas e os professores não podem remar contra esta maré, mas podem, e devem, denunciar a situação: muitos alunos passam sem saber. E parece-me que passar o aluno com a respectiva catrefada de negativas clarifica a sua situação escolar, ao contrário da solução facilitista de votar notas, para que na pauta tudo pareça estar bem.

          Quanto ao mau exemplo para os alunos que se esforçam, é um caminho difícil, mas não vejo outra saída: temos de os convencer de que devem estudar para aprender e porque isso os valoriza como pessoas e cidadãos.

          O miúdo de 12 anos que fazendo os mínimos consegue ir cumprindo e passando de ano está inevitavelmente num campeonato diferente do colega mais velho que acumula já um historial de insucesso traduzido em diversas retenções. E é importante que vá tendo consciência disso, para que não se compare com o outro nem ocorra o tal nivelamento por baixo que eu também não desejo.

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  2. O problema é que os CT são pressionados: o DT é-o pelo Coordenador de DT: este, pela Direcção… Além de que, como a decisão sobre a retenção é tomada por maioria simples, a maior parte dos professores encarneira. É assim, pura e simplesmente. Dado o coitadismo como ideologia afectivo-pedagógica e o laxismo como pedagogia flexível que grassam nas escolas, os docentes entram na reunião final de avaliação com um jerricã de água-benta em cada mão. O argumentário para justificar a transição é invariável (apesar de qualquer pessoa que esteja numa escola perceber que vale zero): idade do aluno, incentivo para o aluno que está desmotivado (este, para mim, sempre foi o argumento mais imbecil: o aluno está-se a cagar, coitado, está desmotivado, não o desmotivemos, passemo-lo, passemo-lo), possibilidade de o aluno obter melhores resultados caso se esforce no ano seguinte, até porque o aluno tem filões de competências por explorar… Ultimamente, acresce outro argumento imbatível: a desmotivação do aluno por causa do E@D…
    Nota – Se há falhas em termos de acompanhamento e apoio de alunos com dificuldades por parte da escola, então esse é um problema que tem de ser enfrentado com meios adequados. Passar com um número de negativas tal (mais do que duas) que mostra que o aluno está completamente desligado da escola e das aprendizagens é indecente para a instituição e aviltante para os professores dignos desse nome. Atendendo ao modo como a avaliação está formatada para o sucesso a martelo, encontrar casos em que se verifica uma caterva de negativas é, em 99% dos casos, prova de que o aluno não é, verdadeiramente, um aluno.

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    • Não me referi no post à pressão sobre os professores para subirem as notas, que é vergonhosa e condeno sem reservas. E também por isso me parece que existe algum progresso nesta possibilidade de os alunos passarem com mais negativas: não se pressionam os colegas nem votam notas, cada docente avalia em consciência de acordo com o que o aluno alcançou na sua disciplina, e é isso que aparece na pauta.

      Mas claro que o ideal era as escolas terem condições e recursos para apoiar todos os alunos de modo a que os planos de recuperação se pudessem concretizar em pleno, e não fossem apenas burocracia escolar.

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