Machismo na academia

Quando começarão os ventos da modernidade, do respeito e da igualdade a arejar, finalmente, todos os cantos e recantos das universidades?

É inaceitável e inqualificável que, após décadas de democracia, de gestão autónoma e de internacionalização, ainda subsistam mestres intocáveis que não encontram melhor forma de afirmação do que a humilhação dos seus alunos. Neste caso, nem se pode sequer invocar a vetustez da instituição, pois a Faculdade de Direito é quase tão jovem como a maior parte dos alunos: tem apenas 26 anos.

Cabe agora aos responsáveis da faculdade, além de esclarecer os contornos da situação denunciada, tomar medidas para que comportamentos abusivos e discriminatórios não voltem a ocorrer.

Um professor da Faculdade de Direito da Universidade do Porto (FDUP) ter-se-á recusado a entregar o enunciado de um exame a uma aluna, na sexta-feira, por causa da forma como estava vestida, considerando que a estudante estava “muito destapada”, segundo a denúncia feita por um núcleo da faculdade nas redes sociais. A direcção da Faculdade de Direito da Universidade do Porto instaurou um “processo de averiguações relativamente aos factos reportados”, confirmou fonte da universidade ao PÚBLICO.

Mesmo depois de a aluna ter cedido à “pressão” para vestir um casaco, o enunciado do exame de recurso da unidade curricular História do Direito só terá sido entregue depois da insistência de outro aluno. A estudante acabou por fazer o exame, mas com menos tempo. A situação foi denunciada no sábado nas redes sociais do núcleo HeforShe da FDUP, em que dizem tratar-se de “um triste episódio de machismo na academia”.

A confirmarem-se as denúncias, o caso “configura uma situação grave de incumprimento daquilo que são quer as normas quer o espírito da universidade”, diz a mesma fonte da Universidade do Porto. Numa nota enviada pela direcção da FDUP a toda a comunidade ao final da tarde de segunda-feira, confirma-se a recepção de “denúncias” sobre o episódio que aconteceu no exame feito a 2 de Junho e é referido que foi aberto um processo de averiguações — o primeiro passo para a instauração de um processo disciplinar, após contraditório.

5 thoughts on “Machismo na academia

  1. É ousado chamar a isto machismo. Só temos um lado da história.
    Depende mesmo da forma como a aluna estava vestida. Há uma dignidade das instituições e dos locais que deve ser respeitada.

    Vale tudo? É isso? Seja aluna, ou seja aluno pode vestir-se (ou despir-se) como entende num local público, neste caso uma instituição pública de ensino?

    Gostar

    • Infelizmente, em casos como este, é muitas vezes necessária a denúncia pública, ainda que ouvindo apenas um dos lados, para que o outro lado se digne pronunciar-se. Caso contrário, é o habitual refúgio no não sei de nada, não vi nada, não é nada comigo, e esperar que tudo caia no esquecimento.

      Agora é claro que não devemos ir para a faculdade como se fôssemos para a praia ou para a discoteca. Na falta de um dress code, impõe-se de parte a parte o necessário bom senso.

      Ainda assim, noto que quando o calor aperta este tipo de situações surgem também nas escolas básicas e secundárias onde, regra geral, se resolvem sem autoritarismos nem fundamentalismos.

      Gostar

      • Se é machismo ou não, não sei. Que é pura prepotência, não tenho dúvida. Trata-se de abuso de autoridade. Querer interditar um estudante de realizar uma prova é inaceitável. Tanto é que, por força da pressão dos outros alunos, o venerando professor emendou a mão.
        Se um estudante aparecesse de calções de praia, não seria adequado, também. Mas, como refere António Duarte, a instituição é omissa quanto ao código de vestuário. Assim, só numa situação extrema é que se pode bloquear o exercício do direito dos alunos a realizar uma prova ou a assistir a uma aula. Devia ser óbvio.
        A hipótese de machismo, não é descabida, no entanto, é melhor perceber melhor os contornos da situação. De resto, é preciso ter em conta que as sensibilidades variam muito quanto ao que é decente ou não decente, pelo que tudo isto devia estar regulado, para bem de todos, inclusive dos docentes. Apesar de nunca falar abertamente do assunto com as minhas alunas, confesso que não me sinto confortável quando elas vêm mais decotadas ou com saias muito curtas ou aberta — não por qualquer moralismo, mas porque passo a policiar o meu olhar, quero dizer, passo a colocar-me a questão: será que ela pensa que estou a olhar para ela, que é como estou a olhar para os outros, com segundas intenções?

        Gostar

Comentar

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.