Educar ou deseducar, eis a questão

A apresentação do estudo, patrocinado pelo grupo SONAE, sobre a influência dos “bons professores” na melhoria dos resultados escolares, perdão, dos exames, suscitou algumas posições e reacções reveladoras. O lamentável tratamento jornalístico feito pelo jornal Público. A indecorosa colagem de antigos e actuais governantes na área da Educação a uma iniciativa que visa descredibilizar a escola pública que deveriam defender. As declarações oportunistas e ignorantes da CEO da SONAE acerca da escola portuguesa, que não estará a adestrar suficientemente bem os futuros trabalhadores e clientes do grupo.

Tudo isto levanta algumas questões essenciais. Deve a escola promover o conhecimento utilitário e prazeroso, ou focar-se nessas aparentes inutilidades que constituem as bases do conhecimento humano – línguas, matemática, ciências, artes e humanidades? Faz sentido a humanização da relação pedagógica num mundo cada vez mais robotizado, ou o futuro é a aprendizagem automática, baseada na tecnologia e avaliada através de testes padronizados? Pretendemos uma escola que conforme os jovens às inevitabilidades da nova ordem económica global decidida pelos poderes dominantes, ou deveremos preparar cidadãos intervenientes, críticos e activos, capazes de tomar nas suas mãos a construção do seu futuro? Queremos reservar o legado científico e cultural construído pela humanidade ao longo de milhares de anos a uma elite, ou acreditamos que as sociedades livres e democráticas em que escolhemos viver necessitam que o conhecimento e a cultura continuem a ser acessíveis a todos os cidadãos?

Raquel Varela é uma polemista de ideias fortes e, como agora se diz, bastante assertivas. Nem sempre se concorda com tudo o que diz ou com a forma como é dito. Mas parece-me que está a ver com bastante clareza toda esta polémica. E agradam-me as suas respostas às questões que acabei de formular.

…Nos países ricos faz-se ciência, nos pobres ensina-se a usar (e comprar) tecnologia. Num produz-se conhecimento, noutro aplica-se, um é independente, o outro dependente. Em Sillicon Valley os filhos dos criadores da tecnologia não só estão em colégios onde não há telemóveis, como se ensina filosofia grega clássica.

O nosso problema não é falta de máquinas na escola, é excesso delas, concomitante com a falta de de conhecimento e de amor ao conhecimento – sim, vivemos numa sociedade que promove e enaltece a ignorância todos os dias. O conhecimento só pode ser dado com muito bons professores, bem pagos, formados em muito boas universidades, onde chegam depois de ter muito bons professores no ensino secundário, onde chegam depois de ter muito bons professores no ensino primário, que ali chegaram porque tiveram muito bons professores na Universidade. E assim, em ciclos de conhecimento, interligados.

Que a SONAE, e o editorial do Público, propriedade da SONAE, cujo mercado opera em áreas cada vez mais automatizadas, da logística à distribuição, no fundo como alguém disse os dois homens mais ricos do país estão à frente de duas gigantes mercearias (Pingo Doce e Continente), onde se recebe a pronto e se paga a 3 meses, diga que lhes falta programadores para automatizarem as suas linhas de produção, é compreensível. Fazem o que devem para ter lucro e mercado – dois lugares que confesso não frequento. Que Ministros e jornais acarinhem estas estratégias, achando que é de mercearias que um país vive, e da operação de máquinas, é revelador sobre a concepção de educação que o Estado tem para quem anda na escola pública.

A Escola serve para dar o melhor do conhecimento produzido pela humanidade a todos – não serve para servir um mercado de trabalho cada vez mais pobre e desinteressante, desumanizado…

2 thoughts on “Educar ou deseducar, eis a questão

  1. Raquel Varela defende posições com as quais muitas vezes discordo.Talvez seja problema meu que não alcanço a sua visão. Humildemente, confesso.
    Mas, neste texto, é claro o que afirma. E dói ler estas linhas porque são tão previsíveis.
    O conhecimento é o ouro do futuro nas mãos de uma minoria que a ele irá ter possibilidades de acesso. Haverá excepções, claro, mas a maioria dos cidadãos ficará a meio da tabela com informação suficiente para sobreviver medianamente. Outros, nem isso.
    E o meu optimismo em relação ao futuro vacila.
    A pandemia parece ter alargado o fosso entre os ricos, uma classe média assustada e resignada e os pobres a sobreviverem de bancos da fome e de alguns suplementos monetários.
    Talvez seja por isto que cada vez mais oiço jovens a optar por outro tipo de vida – voltar ao campo e tentar viver do que a terra lhes poderá dar.
    Com as devidas diferenças, será que a História nos trará uma espécie de Idade Média?

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    • A seguir à II Guerra Mundial, o pleno emprego, a emergência do Estado Social e da sociedade de consumo criaram a ideia de que era possível a prosperidade geral no quadro de uma economia capitalista. Mas as últimas décadas do século XX e o novo milénio trouxeram o fim do que agora chamam os “empregos para a vida” e um desemprego estrutural que só se tenderá a agravar com as TIC e a robótica a substituírem cada vez mais o trabalho humano.

      Como a ideia da redução drástica dos horários de trabalho continua a ser tema-tabu, a realidade é que no futuro não haverá emprego para todos, e julgo que essa antevisão que está por detrás da ideia de um ensino mais lúdico, menos exigente, assente em “competências” básicas e não em conhecimento dito “enciclopédico” para a generalidade da população. E um ensino mais tradicional destinado à formação das elites…

      O mais inquietante, a meu ver, nem são estes dilemas e desafios que se colocam, e que de uma forma ou de outra a humanidade sempre teve de enfrentar. É a recusa obstinada do debate público destas questões, é haver uma elite política, económica e académica empenhada em discutir o acessório e criar consensos artificiais em torno de alegadas inevitabilidades para não se debater o essencial nem se equacionarem verdadeiras alternativas.

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