Má ideia, caro Filinto!

Há directores que pedem autonomia para contratar professores. Sindicatos acham má ideia

Filinto Lima, da Associação Nacional de Directores de Agrupamentos e Escolas Públicas, considera que o actual sistema “não deixa que os melhores professores cheguem às escolas”. “E quem garante que as escolas têm directores capazes e competentes para fazer essa selecção?”, questiona a Fenprof.

Para navegar nas águas turvas da Educação, o líder da ANDAEP adopta geralmente um rumo aos ziguezagues, que mais facilmente lhe permite navegar com os ventos dominantes a favor. Desta vez, Filinto Lima aproveitou o momento propício da divulgação do estudo do Edulog para trazer à agenda uma velha aspiração de alguns directores: a autonomia para serem eles a contratar os professores necessários às suas escolas.

A questão é que já se fez, e na maioria dos casos não correu bem. Em muitos lados, o que se viu foram concursos manhosos, com critérios de selecção feitos à medida de um candidato vencedor à partida. Noutras partes, a promessa de uma recondução alimentava a subserviência dos docentes contratados em relação ao senhor director, favorecendo discricionariedades e abusos de poder. As escolas que tentavam fazer as coisas bem feitas acabavam atoladas em processos burocráticos de análise de currículos e realização de entrevistas, com claro prejuízo do trabalho pedagógico. As contratações de escola, a não ser em casos muito excepcionais, acabaram, e pode dizer-se que não deixaram saudades aos professores.

No entanto, esta busca obsessiva dos bons professores continua presente nalguns espíritos, embora esbarre num problema complicado: a carreira docente está longe de ser atractiva para jovens. Exige uma longa formação académica, incluindo um mestrado em ensino que não abre outras saídas além da docência, e oferece muito pouco em troca: horários incompletos em qualquer parte do país, contratos precários, desemprego forçado entre sucessivas colocações, horários espartilhados e muitas vezes divididos por mais de uma escola. E dez a quinze anos desta vida com a casa às costas até que possa surgir a oportunidade, nunca garantida, de vinculação. Mesmo para quem está na carreira, as más condições e ambiente de trabalho de muitas escolas, o desprestígio da profissão, a avaliação do desempenho vexatória, as pequenas e médias prepotências impostas por uma organização escolar assente nos mega-agrupamentos e no poder dos directores, tudo isto faz com que, da profissão docente, se fuja a sete pés. A começar pelos filhos dos próprios professores…

Torna-se assim complicado escolher “os melhores” se estes nem sequer consideram, no acesso e na formação superior, a hipótese de se tornarem professores. Em muitas escolas, já hoje, fica-se meses à espera de um professor que aceite uma vaga temporária, uma tendência que se irá agravar nos próximos anos, pois nada está a ser feito para a contrariar. Os professores do futuro não serão os melhores nem os piores. Serão, simplesmente, os que em cada momento estiverem disponíveis.

3 thoughts on “Má ideia, caro Filinto!

  1. Mais uma sempre renovada tentativa organizada para a contratação/seleção dos professores pelos directores escolares para ir alienando as mentes lusas.
    Do tímido elogio aos professores aquando do confinamento e das aulas online, passou-se para o pânico das aprendizagens não adquiridas e para Planos para as escolas, veiculadas por pedagogos e outras gentes experts na educação. Webinares, estudos, reuniões e papelada difícil de digerir enviada para as escolas.
    Os rankings foram a cereja em cima do bolo, com muitos tudólogos na comunicação social escrita e falada a lançarem estas ideias das boas e das más escolas, dos excelentes, dos bons e maus professores, do privado vs público e ainda do prémio para o melhor professor do ano.
    Tudo preparado para atingir um fim – alteração de carreiras,municipalizações, contratação de professores e outras intenções ainda não totalmente descortináveis.
    Conseguimos ter a noção do que é um mau professor. É fácil.
    Mas, sinceramente, será que conseguimos facilmente distinguir um bom professor dum professor muito bom ou excelente?
    Com base em quê?
    E isto é mesmo o mais importante que temos para um melhor funcionamento das escolas e das aprendizagens dos alunos?

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  2. Um conselho para o monte de…, que é o Filinto: crie uma escola PRIVADA e contrate os professores que quiser de acordo com os critérios que quiser.
    Já agora: que assuma como modo de vida o que deseja impor aos outros, que deixe o cargo de director e se apresente por aí como candidato a contratação, quer com habilitação própria no público, quer com todo o seu maravilhoso CV nas escolhas privadas. Talvez o escolham como o homem certo para o lugar certo.

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