Os maus professores… outra vez!

Animado por um estudo do Edulog, o ramo da fundação do grupo SONAE que se dedica a influenciar os destinos da educação portuguesa, o Público regressa aos velhos preconceitos contra a classe docente e aos títulos vergonhosos a que em tempos nos habituou. Leituras enviesadas, estudos parcelares e, apesar da sofisticação da estatística utilizada, demasiado tendenciosos: eis o que basta para voltarmos ao discurso maniqueísta dos bons e maus professores, em vez de analisarmos as verdadeiras causas do sucesso e do fracasso na Educação.

Contextualizemos: tal como sucede noutros países, a Educação parece estar a ser percebida como uma área de interesse dos grandes grupos económicos e financeiros. Por cá, a competição intensifica-se entre os merceeiros do regime: se a fundação do Pingo Doce, há largos anos estuda e influencia as políticas sociais, a do Continente não lhe poderia ficar atrás. Recorrendo a um grupo de doutores da estatística, entre os quais avulta uma ex-ministra de má memória, Maria do Carmo Seabra, a Fundação Belmiro de Azevedo abandonou as contas de merceeiro, abriu os cordões à bolsa e patrocinou um estudo que, recorrendo a informação vasta e privilegiada fornecida pela DGEEC e à aplicação de sofisticados modelos matemáticos e estatísticos, tenta determinar a influência dos professores nos resultados escolares dos alunos.

O método é complexo, tem inúmeras nuances e quem o quiser analisar em pormenor deverá consultar o estudo original. Mas pode resumir-se de uma forma relativamente simples: trata-se de comparar as notas dos alunos nas provas finais do 4.º, 6.º e 9.º ano da Português e Matemática. Minimizando o efeito de outros factores, como a condição socio-económica ou a escolarização dos pais, será possível isolar estatisticamente a variável que interessa aos encomendadores do estudo: a influência dos professores na evolução dos resultados dos alunos.

Que é muita. Analisando os dados referentes a 1, 7 milhões de avaliações, envolvendo mais de 40 mil professores, o estudo chega à conclusão esperada: alguns alunos melhoram os seus resultados ao longo de um ciclo de estudos, enquanto outros os mantêm ou até pioram. O mérito – ou a culpa, na maior parte dos casos – reside, sem surpresas, nos professores que lhes calharam em sorte.

Claro que nem a vastidão dos dados usados, a complexidade dos modelos estatísticos ou o determinismo das conclusões conseguem escamotear por completo as fragilidades deste tipo de estudos. Passam ao lado de factores determinantes como o número de alunos por turma ou a organização e o ambiente escolar. Partem de uma visão muito pobre da escola e da educação, ao terem em conta apenas os resultados obtidos em provas e exames, o que pressupõe que o bom professor é aquele que prepara bem os seus alunos para a avaliação externa. E, acima de tudo, não têm em conta um factor que, sobretudo no secundário, tende a ser bem mais decisivo do que as qualidades do professor ou o apoio da família: o recurso a explicadores nas disciplinas sujeitas a exame nacional.

Mas claro que nada disto é feito ao acaso, e este aparente passar a mão pelo pêlo dos “bons professores” é tudo menos inocente. Identificar o professor como determinante no sucesso das aprendizagens permite continuar a manter turmas numerosas e escolas degradadas em funcionamento: afinal de contas, um bom professor deve ser capaz de superar tudo isso, adaptando-se aos contextos menos favoráveis em que trabalha. Permite que se continuem a adiar investimentos em recursos materiais e humanos nas escolas. E mesmo a necessidade de atrair e valorizar os bons profissionais acaba por ser, não muito subtilmente, descartada: se são maus professores, não merecem bons salários. E se são bons, não devem ser mercenários da Educação: devem estar imbuídos, isso sim, do espírito de missão tão bem ilustrado na eleição dos sucessivos “professores do ano”…

4 thoughts on “Os maus professores… outra vez!

  1. Pingo Doce e Continente precisam de mão de obra com a escolaridade obrigatória concluída, a precisar de trabalho, tantas vezes com comprecariedade, más condições laborais e com salários que a gente conhece…
    Há estudantes universitários e já licenciados a trabalharem nestas superfícies comerciais. Mas aguardam por outras oportunidades de emprego.
    Fico à espera que outros comércios do género paguem também estudos semelhantes. Sei lá, o Minipreço ou outros do género.

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  2. Logo no início, as conclusões apresentadas pelos autores do estudo são contraditórias. Exemplo:
    1- “A continuidade pedagógica (…) não tem impacto no resultado dos alunos”, afirma-se na p.8;
    2- e logo a seguir, na p.9 conclui-se: “Por exemplo, no 3º ciclo, em Língua Portuguesa, se todos os professores passassem do percentil 10 para o percentil 90, isso faria com que a percentagem de alunos com nota negativa passasse de 48% para 10%”.
    Ai passava?
    É que, se a continuidade pedagógica “NÃO TEM IMPACTO NO RESULTADO DOS ALUNOS”, o corolário lógico é que tanto faz ter um professor de percentil 90 a Língua Portuguesa ao longo do 3º ciclo, como ter um professor de percentil 10…
    Por outro lado, na p. 56, em que se descreve o método de estimação VAC e VAP (isto é o impacto dos professores) diz-se que “todos os resultados reportados têm como base de comparação um aluno de uma escola pública do continente (…) cujos pais NÃO SÃO de nacionalidade portuguesa (…)”. O que diz tudo sobre sobre a validade da amostra, do estudo e das conclusões…

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