A última moda é a “educação climática”

O ministro da Educação defendeu esta terça-feira a importância da educação climática nas escolas, sublinhando que os alunos são capazes de estimular as famílias e comunidades a aderir ao movimento de uma vida mais sustentável.

Durante um encontro promovido pela Comissão Europeia que reuniu alunos, professores e decisores políticos, o ministro português Tiago Brandão Rodrigues foi questionado sobre a “sua educação de sonho para iniciativas climáticas no futuro“.

“Uma educação de sonho para o clima é aquela que coloca os alunos no centro da mudança nas nossas sociedades”, disse, durante o encontro online “Educação pelo clima”.

Para Tiago Brandão Rodrigues a aposta deve passar por uma educação climática que forme os jovens “a serem os catalisadores dessa mudança, estimulando as suas famílias, as redes fechadas e as comunidades a aderirem ao movimento de uma vida mais sustentável”.

Como deveria ser mais do que evidente para um doutorado em Bioquímica, não é a “educação climática” nas escolas, o que quer que isso seja, que vai solucionar o complexo problema das alterações climáticas decorrentes da actividade humana, cada vez mais evidentes, severas e irreversíveis. Este ME evoca o pensamento crítico, mas os seus responsáveis rejeitam-no todos os dias, na forma acrítica e reverente como papagueiam a agenda educativa dos poderes globalizados.

A emergência climática dos nossos dias não se reverte com gestos simbólicos, mas irrelevantes face à dimensão dos problemas e do impacto ambiental da actividade humana. Não pode sequer ser compreendida fora do contexto económico, social e político das revoluções industriais, da explosão demográfica, do capitalismo globalizado e neoliberal que continua a subjugar a economia mundial em pleno século XXI.

Mudar para um ambiente e uma vida mais sustentáveis para o futuro do planeta implica transformar profundamente a forma como produzimos, consumimos e distribuímos a riqueza criada. E isso, é certo e sabido, não muda por haver mais ou menos consciência climática e ambiental. O único catalisador de mudanças nesta área, manifestamente insuficiente, tem sido a capacidade de transpor para o contexto da economia verde os clássicos modelos de produção baseados na acumulação de capital e na exploração do trabalho. Mas como não se quer enfrentar os poderosos interesses económicos e políticos que impedem as mudanças realmente necessárias, alimenta-se a ilusão de que serão as escolas a mudar a economia, a sociedade, a própria forma como vivemos – algo que nunca aconteceu na longa História da humanidade.

Na verdade, não é a insistir nesta pulverização do currículo em torno de temas da moda, tratados superficialmente, que se consciencializa as novas gerações para as mudanças necessárias. Para compreenderem o mundo em que vivem, como aqui se chegou e o que precisamos de mudar, é essencial o conhecimento científico estruturado que disciplinas como a História, a Geografia, a Economia ou a Biologia podem transmitir. Que integram aliás, nos seus programas, os principais problemas decorrentes do desenvolvimento económico e da actividade humana em geral, nomeadamente os climáticos e ambientais. Achar que o conhecimento disciplinar, maçudo e “enciclopédico”, se substitui com vantagem por umas pesquisas na internet, uns “intercâmbios” com outras escolas, uns trabalhos de grupo e uns recados para as famílias reflecte bem o paradigma educativo deste governo que o ministro, com a sua língua de trapos, se vai esforçando por proclamar.

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