CNE dá parecer sobre a recuperação de aprendizagens

O documento, que não encontrei online, parece trazer consigo algumas ideias válidas, como a redução da burocracia, a atenção especial aos alunos mais novos, indiscutivelmente os que terão sido mais afectados pela paragem forçada das aulas presenciais. Mas nota-se que as boas intenções de quem o redigiu e aprovou se deixam contaminar facilmente pelos preconceitos eduqueses, algo que é típico numa instituição dominada por académicos e tecnocratas que desconhecem a realidade concreta das escolas.

Quando seria precisa abertura de espírito e um pouco do tal pensamento crítico tantas vezes invocado pelos catedráticos da pedagogia, o que se vê é a incapacidade de pensar fora da caixa. E lá surgem os clichés do “mais do mesmo”, da flexibilidade curricular como virtude, quando na maioria dos casos é apenas complicação, do “treino e memorização” encarados como inutilidades e perdas de tempo, quando na verdade são elementos fundamentais e estruturantes do conhecimento e do desenvolvimento de competências.

Por causa dos efeitos da pandemia e dos confinamentos, o Conselho Nacional de Educação (CNE) pede às escolas “especial atenção” com os alunos que irão chegar ao 3.º ano de escolaridade e defende a reorganização do ensino secundário, reduzindo o peso dos exames nacionais no acesso ao superior, evitando aprendizagens baseadas quase exclusivamente “no treino e na memorização”.

O órgão independente consultivo do Estado para questões de educação, escolhido pela Assembleia da República, diz que para o próximo ano letivo as escolas devem identificar as “aprendizagens estruturantes que não foram adquiridas ou consolidadas pelos alunos e que se definam estratégias para obviar as situações mais graves, de preferência sem recorrer a ‘mais do mesmo'”, evitando o aumento das horas letivas e “estratégias pedagógicas fomentadoras da passividade dos alunos”.

Além de ter “especial cuidado com os alunos que estiveram afastados da escola na sua versão digital” ou com os que “sofreram maiores dificuldades”, o CNE pede “especial atenção aos alunos que irão frequentar em 2021/2022 o 3.º ano de escolaridade, ano charneira no seu percurso escolar, em particular quanto às aprendizagens inerentes à literacia da leitura, da escrita e da oralidade, já que foram fortemente afetados nos dois primeiros anos de escolaridade”.

O CNE pede ainda que a educação no pós-pandemia aposte numa “cultura participativa, sem a ideia de policiamento do trabalho na escola e sem agudizar o trabalho burocrático dos professores, que deverão em vez disso ter agora mais tempo para a sua primordial e complexa tarefa educativa”.

Na gestão do currículo, a proposta é que “se use a flexibilidade curricular para reforçar conhecimentos, capacidades e atitudes identificados como menos apreendidos e consolidados em anos letivos anteriores”, sendo referido, em concreto, o caso do ensino secundário.

O CNE recomenda ao Ministério da Educação que “estude a reorganização do ensino secundário de forma a manter o 10.º ano mais livre e transversal aos diferentes percursos de conclusão do ensino obrigatório, relegando para os 11.º e 12.º anos a escolha das vias de conclusão e acesso ao ensino superior, podendo também, nestes anos, haver flexibilidade e permeabilidade entre os diversos desenhos curriculares e recurso à modalidade de ensino híbrido (remoto e presencial)”.

É, aliás, proposto que se reveja o regime de acesso ao ensino superior, sendo retomada uma proposta do CNE de 2020 que defende mudanças profundas, nomeadamente reduzindo o peso dos exames nacionais do ensino secundário na seriação dos candidatos ao superior.

A recomendação agora concluída pelo CNE pede que se evitem, no secundário, “práticas letivas e de aprendizagem baseadas, quase exclusivamente, no treino e na memorização”, com o objetivo de ter boas notas nos exames nacionais e chegar ao ensino superior.

2 thoughts on “CNE dá parecer sobre a recuperação de aprendizagens

  1. Existem no documento ideias interessantes e razoáveis.
    No entanto, como refere o António, sempre os clichés do menosprezo da memória e o estar convencido que o ensino e as aprendizagens se fazem como nos séculos passados, com o professor a debitar conteúdos e a promover a “passividade” dos alunos.
    Esta da “passividade” dos alunos ainda conseguiu fazer-me sorrir.

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    • Está bem que se queira promover o exercício físico, mas faz-me confusão que se menospreze o exercício mental.
      Um aluno a ouvir atentamente o professor ou um colega e a assimilar o que dizem está, parece-me a mim, a fazer uma aprendizagem activa.
      Aprender pressupõe sempre alguma dose de intencionalidade e esforço mental da parte de quem aprende. O conhecimento não se deposita simplesmente no cérebro, tem de ser processado. Ensinar alguma coisa não é o mesmo que levar o carro à bomba e abastecer o depósito.
      Em suma faz pouco ou nenhum sentido falar em aprendizagens activas porque aprendizagens passivas são uma impossibilidade lógica.
      E serem os doutores eduqueses capazes de perceber isto?

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