O regresso dos talibãs

A liberdade e a democracia impostas pela lei da bomba têm este preço. Se as condições económicas e sociais não se alteram, se as culturas e mentalidades permanecem presas ao passado, a retirada dos tanques e dos bombardeiros que garantiam uma paz precária abre caminho a um regresso ao passado que deveria estar morto e enterrado. As maiores vítimas são geralmente os mais discriminados e desprotegidos. No Afeganistão, onde os talibãs voltam a ganhar protagonismo e dia para dia conquistam terreno nas províncias rurais, é o futuro da raparigas que está ameaçado. Os radicais islâmicos não permitem que, chegadas à adolescência, as meninas continuem a estudar. O lugar delas, dizem, é em casa, a ajudar as mães na lida doméstica. E mostram-se dispostos a tudo para fazer valer a sua lei…

Sheberghan, AFEGANISTÃO – A ordem de fechar as escolas femininas foi anunciada na mesquita em uma reunião com os anciãos da aldeia. A notícia veio por intermédio dos professores, em reuniões discretas na casa dos alunos, ou chegou em uma carta para os chefes das escolas locais.

Apelos ao Talibã, argumentações e súplicas foram inúteis. Assim, três anos atrás, as meninas com mais de 12 anos pararam de assistir às aulas nos dois distritos rurais ao sul de Sheberghan, capital provincial no noroeste do Afeganistão. Até seis mil delas tiveram de deixar a escola da noite para o dia. Os professores homens foram abruptamente demitidos: o que eles tinham feito, educar garotas, era contra o islamismo, afirmou o Talibã.

Em todo o Afeganistão, as ordens foram semelhantes às emitidas apenas 64 quilómetros ao sul da capital da província de Jowzjan. Em distritos controlados pelo Talibã, só há aulas para as meninas mais jovens, com poucas exceções. A mensagem do grupo: as adolescentes devem estar em casa ajudando sua mãe.

A aquiescência relutante da população local mostra como a vida poderá ser para os afegãos em todos os lugares se o atual colapso lento das forças militares do governo continuar. As más notícias sobre o crescimento da insurgência chegam todos os dias: mais bases invadidas, distritos capturados, postos rendidos e funcionários do governo e jornalistas assassinados. Desde 1º de maio, quando os Estados Unidos começaram formalmente sua retirada, os talibãs capturaram territórios em praticamente todas as partes do país.

E, este mês, um triplo bombardeio de uma escola na capital do Afeganistão, Cabul, deixou dezenas de alunas mortas. O Talibã negou a responsabilidade, mas o culpado enviou uma mensagem clara: a educação para as meninas não será tolerada.

One thought on “O regresso dos talibãs

  1. Demonstra que o poder da coação fisica é absoluto. Quem o exerce só o consegue fazer se tiver acesso contínuo a recursos financeiros; basta saber de onde vem o dinheiro para sustentar os talibã e sabe-se a fonte de manutenção do grupo.

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