Nativos digitais: a queda de um mito

As crianças do novo milénio nascem e crescem, diz-se, imersas em tecnologia. Habituadas desde bebés a mexer em telemóveis, tablets e outros gadgets, para elas a internet e as realidades virtuais serão coisas tão naturais e intuitivas como o ar que se respira.

O mito já tem alguns anos, e sempre despertou o cepticismo dos mais lúcidos ou, simplesmente, mais observadores da realidade à sua volta. A verdade é que nem todos os miúdos lidam com o mesmo à-vontade com as TIC. E há uma enorme diferença entre o uso recreativo das mesmas e o recorrer a elas para estudar ou trabalhar de forma eficiente e produtiva.

As generalizações apressadas são uma forma preguiçosa e quase sempre enganadora de olhar a realidade. E agora é a insuspeita OCDE a reconhecer que, afinal, ninguém vem preparado de fábrica para trabalhar com as novas tecnologias. Crianças e jovens precisam, vejam só, de adquirir competências básicas que lhes permitam distinguir factos de opiniões, seleccionar informação relevante, confirmar a sua veracidade e, pelo caminho, não cair nas armadilhas do phishing e das fraudes via internet. E quem lhes irá ensinar todas estas coisas essenciais? Os mesmos de sempre, claro, aqueles que ainda não há muito tempo começavam a ser considerados dispensáveis e irremediavelmente ultrapassados, na era das auto-estradas da informação e da sociedade do conhecimento: as escolas e os professores…

A familiaridade dos adolescentes atuais com a tecnologia, que faz deles nativos digitais, não os torna automaticamente habilitados para compreender, distinguir e usar de modo eficiente o conhecimento disponível na internet.

Pelo contrário, os dados sugerem que eles são, em grande parte, incapazes de compreender nuances ou ambiguidades em textos online, localizar materiais confiáveis em buscas de internet ou em conteúdo de e-mails e redes sociais, avaliar a credibilidade de fontes de informação ou mesmo distinguir fatos de opiniões.

As conclusões foram apresentadas pela OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico) em seminário virtual na última quarta-feira (26/05), com base no relatório Leitores do Século 21 – Desenvolvendo Habilidades de Alfabetização em um Mundo Digital.

“Ter nascido na era digital e ser um nativo digital não significa que você vai ter habilidades digitais para usar a tecnologia de modo eficaz”, afirmou no seminário Andreas Schleicher, diretor de educação da OCDE.

Os resultados também mostram que, apesar de sua crescente familiaridade com a tecnologia, os jovens não necessariamente aprendem instintivamente as habilidades necessárias para usar essa tecnologia para obter informações confiáveis.

De modo geral, o maior acesso a tecnologia entre os jovens nos últimos anos não se traduziu em mais educação midiática, disse Schleicher no seminário: os índices de alfabetização digital dos jovens evoluíram pouco nas avaliações do Pisa feitas entre 2000 e 2018, apesar das enormes mudanças sociais e digitais vividas pela comunidade global nesse intervalo de tempo.

Mais do que contato constante com a tecnologia, Schleicher defendeu que são a “aprendizagem tradicional” e o engajamento de professores que farão a diferença em dar aos alunos a capacidade de entender diferentes perspectivas em um texto e serem capazes de identificar nuances e opiniões.

3 thoughts on “Nativos digitais: a queda de um mito

  1. Agora temos esta novidade de ensinar os alunos a diferenciar “factos de opiniões”.
    Coisa nunca vista! Coisa nunca feita!
    E, para a confusão ser maior, chamam a isto “aprendizagem tradicional”?

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  2. Sobre os nativos digitais deve falar quem sabe:

    “Fala-se, por exemplo, num MITO, esse sim, um mito, que agora as crianças, por terem nascido já em contacto com os computadores, tablets, smartphones, pensam e aprendem de forma diferente daqueles que de nós não nasceram com acesso a estas tecnologias, os chamados “nativos digitais”, e isso não é verdade…” Célia Oliveira

    Ver e ouvir a partir de 31min22seg
    https://www.rtp.pt/play/p6722/e494992/fronteiras-xxi

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  3. Gerou-se um paradoxo inédito: seria expectável o nativo digital ter uma elevada proficiência na tecnologia, mas verifica-se que a maioria ignora o uso produtivo do digital. O que se verifica é que os velhos (os ‘cotas’ como dizem os adolescentes) têm mais competências em produtividade informática. O motivo é simples: o nativo digital foi intensamente estimulado a usar a tecnologia exclusivamente para uso lúdico, recreativo, entretenimento, numa postura unicamente de utilizador consumista e não de utilizador criativo.

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