Mais do mesmo

O plano de recuperação das aprendizagens receberá uma dotação de 900 milhões de euros. A estratégia está definida: a recuperação será feita durante os próximos dois anos letivos através do reforço dos recursos humanos, nomeadamente 3300 professores, da autonomia da gestão das escolas e da flexibilização curricular, garantiram esta terça-feira primeiro-ministro e ministro da Educação.

Na apresentação do pomposo Plano 21/23 Escola + nem uma palavra para a medida que seria a mais eficaz, no imediato, para a melhoria das aprendizagens: a redução do número de alunos por turma. Se queremos um ensino mais individualizado, com maior atenção às dificuldades e especificidades de cada aluno, mas não queremos massacrá-los com o aumento de uma carga lectiva já excessiva, a solução tem se der encontrada no melhor funcionamento das aulas: Pôr fim às turmas numerosas, nas quais grande parte do tempo se perde a restabelecer a ordem, a chamar a atenção aos distraídos, a tentar motivar uns enquanto outros se dispersam, deveria ser neste momento uma prioridade nacional.

Ainda assim, fica a promessa de mais de três mil professores contratados – o que dará uma média de quatro por agrupamento ou escola não agrupada e não representa um reforço efectivo dos quadros das escolas para um trabalho de continuidade – e a insistência em receitas falhadas, ou longe de corresponderem às elevadas expectativas dos seus mentores: as tutorias grupais, as oficinas de escrita, os clubes de ciência, mais livros – que ninguém lê – para as bibliotecas escolares. E, claro, mais “formação de professores”, que se for feita nos moldes que se tornaram habituais, não passa de formatação inútil e desgastante nos dogmas educativos do regime e nas pedagogias burocráticas e ineficazes que o ministério não desiste de promover.

Analisando a informação que vem sendo veiculada pela imprensa descobre-se outro aspecto curioso, mas não surpreendente. Como já ontem vaticinava, a parte de leão dos novos investimentos será, não nos recursos humanos, mas em equipamentos e tecnologia: perto de 75% dos 900 milhões orçamentados serão para comprar máquinas e maquinetas. Um investimento que até será necessário, mas sejamos honestos: não é por causa da pandemia. É mesmo porque, durante mais de uma década, se investiu zero nos equipamentos informáticos e hoje o que temos nas escolas é, quase tudo, material obsoleto e em fim de validade…

O investimento anunciado será dividido entre o reforço de recursos humanos (140 milhões de euros), formação de docentes e não docentes (43,5 milhões), recursos digitais (47,3 milhões). A maior fatia irá para o apetrechamento e infraestruturas (670,5 milhões de euros). No total, serão gastos 901,3 milhões de euros na recuperação das aprendizagens prejudicadas pelo impacto da pandemia no ensino, nomeadamente nos meses passados em ensino à distância.

Da forma como tudo isto está ser apresentado, julgo que só nas mentes tortuosas que pontificam no ME é que a coisa fará sentido: como é que se recuperam aprendizagens perdidas com o ensino online? Pois, com mais recursos digitais nas escolas e mais horas passadas frente ao computador…

4 thoughts on “Mais do mesmo

  1. A memória já vai falhando, mas lembro-me do plano de Melhoria para a Matemática (com acções de formação em grandes quantidades), dos horários cheios de horas de Matemática e Português, incluindo apoios e tutorias, das Metas de Aprendizazem, dos Perfis dos alunos, dos Projectos, , das Flexibilidades, das Aprendizagens essenciais…
    Tudo ao mesmo tempo, tudo sobreposto em camadas, tudo com formações redundantes, muito em contradição com o existente que persiste.

    As variáveis que deviam ser testadas – horários, carga curricular, turmas mais reduzidas e tempo suficiente para trabalho colaborativo didático e pedagógico (e não para tomar conhecimento e implementar algo que à partida já se desconfia) – estas variáveis nunca são consideradas por motivos economicistas ou até por verdadeira crença que ensinar uma turma de perto de 30 alunos é até melhor do que ensinar uma turma de 15 alunos.
    Agora vão despejar mais tecnologia, formam-se grupos de trabalho de alunos e apresentam-se projectos tantas vezes copy/paste da wikipédia. O professor vai moderando a coisa e os alunos vão construindo as suas aprendizagens perdidas.

    No final, será mais uma oportunidade perdida.

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  2. qualquer liderança competente e não maquiavélica sabe que a recuperação também passa pela motivação profissional, coisa inexistente quando se transmite aos profissionais que não há hipótese de melhorarem a sua carreira…

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