Leituras: Disciplinas ou domínios curriculares?

Faz sentido fragmentar o conhecimento em disciplinas quando no mundo real estas estão interligadas? Haverá vantagens em desconstruir o currículo escolar sob o conceito dos domínios de aprendizagem? Em Espanha, a nova lei educativa abre caminho às pretensas inovações pedagógicas que por cá já conhecemos há algum tempo, com resultados que estão longe de ser brilhantes. Desmontando os novos mitos educativos, deixo-vos a oportuna, esclarecedora e muito bem fundamentada reflexão de Gregorio Luri.

Parece que na pedagogia de hoje é preciso ser imaginativo para estar actualizado. Mas como a um dia se segue o outro, tem de se ser imaginativo ao quadrado. A pedagogia tornou-se uma corrida de inovações em busca da actualidade. A penúltima é o desprezo pelas disciplinas, com o argumento muito singular de que na vida nunca se encontram disciplinas, mas sim problemas multidisciplinares ou, para o dizer de uma forma mais moderna, “ambientes multitarefa” em que a experiência e o conhecimento estão integrados. Conclusão: as disciplinas não servem para compreender a realidade, mas para a dividir de forma caprichosa. São instrumentos classificatórios arbitrários que dificultam a aquisição do conhecimento.

Admitamos que a racionalidade pedagógica não vive propriamente uma época de ouro. Algumas luminárias cobram quantias muito substanciais por darem palestras clonadas nas quais denunciam que “o sistema educativo tradicional ensina certezas”. Como se os pais mandassem os seus filhos para a escola para adquirirem conhecimentos rigorosos! “A escola é uma prisão que maltrata os nossos filhos”, pontificam outros. Há quem utilize argumentos axiomático-dedutivos em palestras magistrais para criticar o raciocínio dedutivo das aulas magistrais. Fui testemunha. O que não compreendo é porque é que estes génios não usam as suas energias para construir uma escola alternativa onde as crianças venham todas as manhãs a saltar de alegria depois de saírem da cama à primeira, felizes porque hoje é também um dia de trabalho.

A rejeição das disciplinas anda de mãos dadas com o desprezo pelos livros escolares, que se tornaram o estigma da velha escola. Como é que as gerações obrigadas a utilizar livros escolares aprenderam alguma coisa, quando as fotocópias amarrotadas no fundo da mochila, junto da banana esquecida na semana passada, são tão pedagógicas! Esta rejeição não é, estritamente falando, nova. Foi generosamente praticada por Kilpatrick há cem anos atrás. Assim, quando se legaliza o que agora se chama “domínio” da aprendizagem, (o agrupamento de duas ou mais disciplinas numa nova), está-se a repor o relógio da modernidade nos felizes 20 anos do século passado.

Quer queiramos aceitá-lo ou não, a missão da escola não é trazer o mundo real para a sala de aula, mas acelerar a aquisição de conhecimentos do aluno num ambiente artificial, para que ele possa cobrir em poucos anos a distância que separa o grunhido do homem das cavernas de um soneto de Lope e o machado de pedra da Internet. A escola está sempre a lutar contra o tempo e nunca soube como ter sucesso com todos os alunos. Este é o drama que estimula o aparecimento de propostas educativas que, para serem amigáveis, escondem a relevância do tempo. Não é fácil ter o tempo educativo necessário que é exigido por aqueles que, por avançarem a um ritmo mais lento, se ressentem e sofrem com o ritmo médio da turma.

É claro que os domínios de aprendizagem não poupam tempo. No mundo real não há nada mais comum do que encontrar problemas que tenham a ver com matemática, geografia, química ou literatura, ou seja, com disciplinas. Não há nada mais comum do que a necessidade de recorrer a um especialista eficiente, desde o dentista ao gestor. É por isso que é dever da escola assegurar que todos os alunos, e especialmente os mais desfavorecidos culturalmente, tenham a oportunidade de adquirir conceitos científicos sobre o mundo. Quando uma criança usa as palavras “gato” ou ” mamã” o seu significado é fortemente impregnado com as suas experiências únicas e intransmissíveis com o seu gato e a sua mamã. Os conceitos científicos de “gato” ou ” mamã” transcendem a experiência individual para se tornarem conceitos acessíveis a uma experiência universal. A ciência é o domínio do conceito. É por isso que quando nos é dito que em “ambientes multitarefa” a experiência e o conhecimento estão integrados, temos de ser claros que a experiência e o conhecimento da criança estão, em qualquer caso, a caminho de se tornarem científicos, mas ainda estão longe de o ser.

Quando perguntamos a uma criança como se chamam as crianças nascidas em Teruel e ela responde “recém-nascidos”, está a dar-nos uma resposta psicologicamente verdadeira (porque é a resposta à pergunta que ele próprio fez ao traduzir a pergunta do professor na sua experiência) mas cientificamente miserável. […]

O conceito científico é mais flexível do que o psicológico porque, insisto, é acessível à experiência linguística comum. Não se refere à minha experiência exclusiva. Aquele que sabe como responder à pergunta “o que é x?” sabe mais coisas sobre o mundo do que aquele que só pode falar sobre como experimenta “x”. Aquele que sabe definir “x” possui um conhecimento poderoso.

Trabalhar na horta pedagógica está muito bem… desde que, no final, o aluno adquira conceitos científicos sobre a agricultura, a estrutura das plantas, etc.

Porque é que ao longo da história da educação a lista de disciplinas académicas mudou tão pouco (embora o seu conteúdo se tenha modificado)? A resposta é simples: uma disciplina não é um capricho. Não nasceu porque alguma pessoa excêntrica, por impulso, pensou em fragmentar a realidade e elevar um dos fragmentos à categoria da ciência. Pelo contrário, aconteceu o oposto. Foram investigadores rigorosos que descobriram que existem áreas da realidade que só podem ser vistas com nitidez a partir de uma perspectiva cujo desenvolvimento deu origem a uma nova disciplina.

Não é por acaso que o matemático vê figuras geométricas e equações em todo o lado. O que ele vê está lá, e é acessível a todos… aqueles que têm um olhar matemático. Só quem conhece inglês compreende aqueles que falam inglês ao seu lado, e o bom cozinheiro sabe apreciar se um guisado de legumes está no ponto. Vygotsky enfatizou algo que os filósofos sabem desde há muito: que os factos (os dados da realidade) não se deixam agrupar de qualquer maneira, mas apenas de acordo com a ordem que lhes permite encaixar entre si formando estruturas disciplinares coerentes.

Uma disciplina é uma certa perspectiva da realidade partilhada por uma comunidade de cientistas que seguem uma metodologia rigorosa. E não há uma forma não-perspectivista de olhar para a realidade. É verdade que muitas vezes um cientista precisa da ajuda de outro cientista de um campo de estudo diferente para completar a sua visão das coisas. Os economistas recorrem frequentemente a matemáticos, demógrafos ou geógrafos. Mas não é menos verdade que tomam essas ajudas como contributos auxiliares à sua perspectiva económica.

Se nos preocupamos com a aprendizagem, tratemos de trazer para a sala de aula professores que dominem as suas disciplinas. Esta é uma condição necessária para a sua eficácia. Aqueles que conhecem bem a complexidade do que ensinam estão em condições de compreender as dificuldades de quem aprende.

Quanto à complexidade da vida, aceitemos que ela não se enquadra em nenhuma disciplina. Vemos sempre parte do mundo. O importante é que o que vemos seja rigoroso e comunicável. Para tal dispomos da linguagem. Se queremos completar a nossa parcialidade, mantenhamos um esforço permanente para reforçar o rigor da nossa linguagem (conceptual e poético, claro).

Terão reparado que comecei por falar de disciplinas curriculares e acabei falando de disciplinas científicas. Não foi por acaso.

Gregorio Luri, Asignaturas y disciplinas

One thought on “Leituras: Disciplinas ou domínios curriculares?

  1. Excelente!
    Como a elevação do discurso e o rigor conceptual e analítico deste artigo constrastam com a logomaquia e mistificação dos pedagogos à la carte, sem esquecer o inultrapassável demagogo que é o Secretário de Estado.

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