O péssimo serviço dos rankings

O Ranking das Escolas Públicas é um péssimo serviço prestado ao país. E mostra bem o mundo em que vivemos: temos dados, tecnologia, informação, mas não retiramos os ensinamentos desses dados, não os usamos para melhorar e pura e simplesmente consideramos que os dados organizados de uma determinada forma são um caminho. Não são. São antes um enorme engano.

A Escola Pública é um grande objetivo civilizacional. Não se mede por rankings anuais ou por médias de exames. A Escola não pode ser avaliada por uma métrica de curto prazo, assim como a ciência não se pode medir pelos artigos publicados, ou pelas citações num determinado momento. Os objetivos são de longo prazo e têm a ver com o impacto global e sustentado na nossa sociedade, na forma como vivemos e no caminho que queremos fazer como civilização. Desmerecer a Escola Pública com este tipo de avaliações é lutar contra nós próprios;

No entanto, os dados mostram que há coisas a fazer e a alterar. E isso os números dizem com clareza, pelo que é desesperante que quase 50 anos depois do 25 de Abril o país continue preso a processos ineficazes, atrasos de todo o tipo, questões ideológicas inaceitáveis, falta de clareza, falta de eficácia, problemas de organização e ausência de compromissos claros que impedem a Escola Pública de cumprir melhor os seus muito nobres e essenciais objetivos…

Por entre as vulgaridades e lugares comuns que se repetem, ano após ano, na sequência da divulgação dos rankings, sabe bem encontrar, na imprensa dita de referência, uma ou outra reflexão verdadeiramente interessante, original e pertinente.

É o caso desta prosa do professor Norberto Pires, que começa por colocar a questão no ponto essencial. Nunca dispusemos de tanta informação acerca de tudo, nem de tanta diversidade de meios para a obter e divulgar. E no entanto, persistimos na ideia absurda de pretender avaliar a qualidade das escolas e do sistema educativo a partir de um indicador tão pobre e limitado como são as médias de resultados dos exames nacionais.

O problema de fundo da escola pública, e que a privada de elite consegue à sua maneira ultrapassar, é a falta de investimento. As dificuldades, as insuficiências, a incapacidade de dar a todos tudo o que necessitam. São carências há muito diagnosticadas, que exigem alocação de mais meios, melhor organização, foco nos objectivos concretos que a escola deve prosseguir e não em preconceitos ideológicos ou no cumprimento de uma agenda ao serviço de interesses que não os dos alunos. Que exigem fazer da Educação a prioridade nacional que está muito longe de ser.

Em vez da infantilidade dos rankings, o autor propõe a valorização da escola pública, fazendo dela um espaço onde se aposta em cada aluno, se ensina e aprende com prazer e se despertam interesses e vocações. Assumindo, como muitos da sua geração, ser um produto da escola pública, Norberto Pires salienta a importância de termos nas escolas professores dedicados, criativos, com vida própria e com mundo, mas também com tempo para os seus alunos. Recorda que a escola pública pode mudar a vida das pessoas. Mas para isso é preciso resistir à tentação de as transformar em números.

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