Selfie desfocada

O SELFIE «Self-reflection on Effective Learning by Fostering Innovation through Educational technologies» é um instrumento de autorreflexão e autoconhecimento concebida para apoiar as escolas no processo de aprendizagem na era digital, a incorporar tecnologias digitais no ensino, na aprendizagem e na avaliação das aprendizagens dos alunos. A ferramenta pode realçar o que está a funcionar bem, as áreas que requerem melhorias e quais devem ser as prioridades. O SELFIE apoia a compreender de que forma o Digital está integrado na escola e é utilizado pela comunidade educativa.

Utiliza questionários para recolher as opiniões dos dirigentes escolares, professores e alunos, de forma completamente anónima e voluntária, e compila os resultados num relatório interativo que permite identificar os pontos fortes e os pontos fracos sobre a forma como as tecnologias são utilizadas na escola. O SELFIE não mede nem compara os conhecimentos ou as competências dos utilizadores.

Ao contrário das verdadeiras selfies, em que basta escolher o enquadramento, clicar no botão do telemóvel e está feito, esta SELFIE que anda a ser impingida às escolas é uma monumental estopada, que deixa qualquer respondente mal disposto, com tantas perguntas, acerca de coisas tão rebuscadas, subjectivas e muitas vezes impossíveis de exprimir na escala quantitativa apresentada. E nem quero pensar na trabalheira que será transformar a estatística das respostas num suposto auto-retrato das competências digitais latentes em cada escola ou agrupamento.

Há dois erros básicos de concepção nos questionários que andam a ser feitos aos vários grupos que compõem a comunidade escolar. O mais óbvio é, naturalmente, a extensão do documento: demasiadas perguntas, muitas delas repetitivas e com uma formulação que nem sempre é clara. Inquéritos deste tipo acabam por dar resultados pouco fiáveis, por vezes até contraditórios. Pois chega-se a um ponto em que até o respondente mais zeloso acaba por se sentir saturado de um trabalho repetitivo e começa a responder de forma automática e pouco ponderada. Diria mesmo, embora este tipo de considerações raramente passe pela cabeça dos nossos decisores educativos, que é de um profundo desrespeito pelos professores, pelos alunos e por outros inquiridos, presumir que têm o direito de tomar tanto tempo às pessoas, apenas para simular um processo de suposta “auto-reflexão” que irá justificar decisões previamente tomadas.

Outro erro, menos evidente, mas muito vulgarizado nos inquéritos que se fazem na área das chamadas ciências da Educação e que tanto as descredibilizam, é o de se substituir a investigação rigorosa sobre a realidade existente por percepções acerca dessa realidade. Queremos saber se a escola tem um parque informático funcional? Contem os computadores existentes, liguem-nos e meçam o tempo que demoram a arrancar, verifiquem se dão som, se têm câmara ou outros acessórios úteis à escola digital. Analisem a velocidade da rede informática e dos acessos à internet, a cobertura wireless dentro e fora das salas de aula, os sistemas de segurança implantados. Contem quantos alunos e professores estão inscritos em plataformas de ensino online adoptadas pela escola, sejam elas o Moodle, GSuite ou Teams. Quantifiquem quantos as usam frequentemente, quantos o fazem ocasionalmente, quantos apenas se inscreveram. Está tudo nessas plataformas, e é este tipo de dados que nos pode dar informação exacta e objectiva acerca da realidade, não uma qualquer introspecção psicológica para induzir cada elemento da comunidade escolar à descoberta da complexa relação com as novas tecnologias na Educação.

É por estas e outras razões que a SELFIE que agora querem tirar às escolas será forçosamente uma foto desfocada. Quando substituímos o olhar directo sobre o que queremos conhecer por reflexos, percepções ou estados de alma estamos a regredir na procura do conhecimento. É como se regressássemos à caverna de Platão, aos prisioneiros das trevas que confundem as imagens sombrias e distorcidas, projectadas na parede, com a verdadeira realidade.

2 thoughts on “Selfie desfocada

  1. Plenamente de acordo. Já tive oportunidade de responder a inquéritos, para recolha de informação, a utilizar em teses de mestrado e de doutoramento, na área das ciências da educação, que me deixaram de cabelos em pé. Feliz ou infelizmente, consoante o ponto de vista, mas com muita curiosidade, não tive a oportunidade de saber os respectivos resultados. E nesta questão da utilização massiva dos recursos digitais no processo de ensino e aprendizagem, não posso deixar de dizer que existem muitas opiniões, bem fundamentadas, de que continua a ser importante, e fundamental, a utilização dos livros em papel e a escrita manual nos cadernos. Aguardemos pelo futuro para sabermos dos resultados.

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  2. «Self-reflection on Effective Learning by Fostering Innovation through Educational technologies» É absolutamente enternecedor reler matérias que fizeram parte do meu estágio há mais de 30 anos. Só que o título era em português e não era tão comprido. .extraordinario! E o mais que tudo é a tradução : selfie desfocada. Cheira-me a copos!

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