O ritual dos rankings

Ano após ano, repete-se o ritual da divulgação dos rankings das escolas. No plural, pois embora sejam elaborados a partir dos resultados dos respectivos alunos nos exames nacionais e mais alguns dados de contexto fornecidos pelo ME, a interpretação dos mesmos e o tratamento estatístico fica ao critério de cada órgão de comunicação, o que gera algumas discrepâncias entre as listas.

Entre os media, destaca-se a pequena festa que o Público faz todos os anos quando chega este dia. O “jornalismo de causas” que os levou a bater-se pela divulgação pública destes resultados obriga-os agora, mesmo passado o efeito da novidade, a investir no tratamento estatístico e noticioso da informação. Mas já se lhes notou maior entusiasmo: o discurso em torno de estribilhos como “sucesso”, “resiliência”, “liderança” e “superação” tende a tornar-se repetitivo. E apesar das profissões de fé nas virtudes dos rankings, a verdade é que a realidade continua a ser o que é, e não dá sinais de mudança. Já estamos naquela fase em que se faz o mesmo de sempre – a veneração anual a S. Ranking – esperando resultados diferentes.

A favor dos críticos dos rankings, surgem este ano razões de peso: devido às condições em que as escolas funcionaram no contexto da pandemia e à alteração dos critérios de classificação das provas, os resultados não são directamente comparáveis aos dos anos anteriores. Por outro lado, as provas finais do 9.º ano não se realizaram, pelo que este ano não há rankings do ensino básico, e os exames do secundário foram opcionais, feitos apenas quando os alunos precisavam deles como provas específicas para candidatura ao ensino superior. Esta redução do universo de alunos avaliados também limita as comparações com os resultados que estão para trás.

Quanto aos defensores da divulgação de rankings, mesmo em tempo de pandemia, há um argumento a que sou sensível: os rankings são acima de tudo informação objectiva sobre a realidade do sistema educativo. Por muito parcelar e limitada que seja, por muito sensível que se mostre a factores que transcendem a escola e o trabalho da sala de aula, a verdade é que aquela informação pode ser o ponto de partida para analisar e estudar tudo o resto, identificando causas tanto do sucesso como do insucesso, ajudando a redefinir políticas e práticas educativas para corrigir e melhorar os resultados.

Contudo, a verdade é que já há 20 anos se publicam rankings com base nas notas dos exames e o que se tem visto, ao longo de todo este tempo, é acentuar-se o domínio esmagador dos colégios privados no topo, enquanto as escolas públicas que recebem a população escolar mais carenciada ficam estagnadas, sem apelo nem agravo, no fundo da tabela. Os rankings continuam a funcionar como uma promoção gratuita e descarada dos colégios de elite, que lutam entre si pelas centésimas que os fazem ganhar ou perder posições – e aumentar, ou não, o valor de mercado do serviço que vendem às famílias – enquanto o ME que divulga, supostamente a contragosto, estes resultados, vai fornecendo também dados de contexto – disponíveis apenas para as escolas públicas – que permitem aos jornais inventar um espécie de prémios de consolação para as escolas que, sendo boas, nunca poderão disputar a liderança do campeonato.

Ou seja, não só a divulgação dos rankings se vem mostrando inútil para a melhoria de resultados, como está a ter precisamente o efeito oposto: gerando a procura entre os supostamente melhores, permite a estes refinar a selecção da matéria-prima de que efectivamente se constroem boas médias: os bons alunos. E desmoraliza as escolas nas posições inferiores, de onde fogem os alunos com maiores aspirações académicas, condenando-as a disputar, anos a fio, a liga dos últimos classificados. A publicação de rankings não é apenas uma questão de “acesso à informação”: ela tem um efeito de auto-profecia, acentuando as desigualdades e as perversões do sistema que ao mesmo tempo denuncia. Espanta-me que mesmo os seus mais argutos defensores não reconheçam esta realidade.

A ideia de que mais informação conduz a melhores políticas tem sido activamente promovida por organizações como a OCDE e as fundações com interesse no sector da Educação. Mas a verdade é que tudo depende do uso que fazemos da informação de que podemos dispor. E sucessivos governos mostram completo desinteresse por alterar a realidade que os rankings evidenciam. Pois se há coisa que os rankings das escolas nos mostram com clareza é a forte correlação entre desigualdade social e sucesso escolar. Para qualquer marciano que nos visitasse e deparasse com esta realidade, seria óbvio o que há a fazer: corrigir as desigualdades na sociedade e na vida dos nossos alunos para que todos possam ter condições de sucesso na escola. Mas o que se faz é o contrário: esperar que a escola produza milagres na integração e no sucesso educativo, dispensando o poder político de tentar reformar uma sociedade estruturalmente desigual, injusta e discriminatória, onde são geradas as condições que limitam o sucesso escolar.

One thought on “O ritual dos rankings

  1. Tenho andado curiosa com o novo curso de medicina na Católica.
    Como será feita a seleção dos candidatos, sabendo-se que as propinas são altíssimas?
    Isto pode parecer fora do tema, mas talvez não…

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