Recuperar aprendizagens: mais do mesmo não é suficiente

Human Rights Watch quer educação “no centro” dos planos de recuperação pós-pandemia. Relatório da ONG documenta como o encerramento “sem precedentes” dos estabelecimentos de ensino devido à crise pandémica provocou danos e afectou “de forma desigual” a população estudantil, numa escala nacional e mundial.

Uma leitura simplista do relatório da Human Rights Watch confirmará o que já foi dito vezes sem conta: o fecho das escolas por causa da pandemia afectou as aprendizagens dos alunos; destes, os mais pobres, com menos apoio familiar ou com maiores dificuldades foram os mais prejudicados. Conclusão lógica, apostar na reabertura prioritária das escolas e investimento nos sistemas educativos, de forma a recuperar o tempo e as aprendizagens perdidas.

Contudo, lendo a notícia até ao fim, percebe-se que a questão é mais complexa do que isto. Não foi a pandemia que criou as desigualdades, a discriminação, a falta de oportunidades: esta realidade já existia antes; a pandemia apenas a acentuou e evidenciou. Pelo que não basta agora voltar ao que se fazia anteriormente; é preciso mais e melhor, e de uma intervenção que não se circunscreva ao universo escolar. Precisamos sobretudo de políticas económicas e sociais diferentes, se queremos mesmo quebrar os ciclos de pobreza, abandono escolar e exclusão que persistem nesta era de capitalismo global.

No relatório, a HRW salienta, porém, que os danos verificados na educação de muitas crianças em todo o mundo estão sustentados em questões precedentes à covid-19.

“Uma em cada cinco crianças estava fora da escola antes mesmo da covid-19 começar a propagar-se”, aponta a HRW, citando dados das Nações Unidas.

Um universo que inclui, entre outros exemplos, crianças que vivem na pobreza ou em risco de pobreza, menores que pertencem a minorias étnicas e raciais num país, raparigas que vivem em países com desigualdades de género ou crianças deslocadas, refugiadas, migrantes e requerentes de asilo.

Para a investigadora Elin Martinez, a simples reabertura das escolas “não irá desfazer os danos” na educação, “nem sequer assegurar que todas as crianças regressam à escola”.

“A educação das crianças foi confiscada num esforço para proteger a vida de todos do (novo) coronavírus. Para compensar o sacrifício das crianças, os governos devem finalmente estar à altura do desafio e tornar urgentemente a educação gratuita e disponível para todas as crianças em todo o mundo”, conclui.

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