3 anos, 7 professores

Um grupo de pais de alunos do 3.º ano da Escola Básica da Praia, em Matosinhos, pediu hoje uma “solução urgente” para a “constante substituição de professores” na turma que, em três anos, já teve sete docentes.

Ao longo destes três anos, os 24 alunos desta turma já tiveram sete professores, na sequência de sucessivas substituições devido a pedidos de baixas médicas por parte dos mesmos, contou à Lusa a mãe de um aluno Célia Machado, concentrada à porta deste estabelecimento de ensino.

No 1.º ano, a professora titular ficou de baixa e, depois de meses sem ser substituída, veio uma nova e, a seguir a esta, uma outra, referiu.

“Só no primeiro ano, foram três professores que os meninos tiveram”, afirmou.

No 2.º ano a situação repetiu-se com a docente titular a colocar atestado médico, o que levou os alunos a serem acompanhados por uma professora de coadjuvação, salientou.

Atualmente, e estando estes agora no 3.º ano, aconteceu novamente o mesmo, contou.

Um caso como o que é descrito nesta notícia poderá ser invulgar, mas as substituições temporárias ou definitivas de professores, geralmente por motivo de doença, não só são comuns como se vêm tornando cada vez mais frequentes. Resultam principalmente de duas situações. A primeira, e mais óbvia, é o envelhecimento da classe docente: os problemas de saúde tornam-se mais frequentes, implicando baixas médicas cada vez mais prolongadas. Mas também o recurso excessivo à contratação a termo, muitas vezes em condições penalizadoras para os docentes colocados, torna difícil a aceitação e a manutenção nos respectivos lugares por parte dos professores colocados.

Este estado de coisas não serve a ninguém. Não dá estabilidade aos jovens professores nem permite uma retirada digna aos docentes mais idosos e desgastados, no final de uma longa carreira. Mas também é altamente prejudicial aos alunos que ficam sem aulas, sobretudo quando isto ocorre nos primeiros anos de escolaridade, em que tanto a sequencialidade das aprendizagens como a qualidade e o aprofundamento da relação pedagógica são essenciais. E é claro que não dá segurança nem confiança às famílias, apreensivas com os atrasos nas aprendizagens, que esperam e desesperam pela substituição de sucessivos professores.

Contudo, este é claramente um exemplo de como os interesses dos professores, dos alunos e das famílias tendem a ser naturalmente convergentes na busca de soluções para uma melhor Educação. Promover a estabilidade profissional e o acesso à carreira dos jovens professores; reforçar os quadros das escolas e agrupamentos, de forma a criar folgas que possam cobrir ausências temporárias; facilitar o acesso à reforma e à pré-reforma aos professores mais antigos – estas são velhas reivindicações dos professores que também beneficiariam os alunos e as famílias. Porque caminham professores e pais de costas voltadas, apesar do muito que teriam a ganhar se unissem esforços em defesa da qualidade do ensino e dos interesses dos alunos?

Neste contexto de desunião, por vezes até de hostilidade da parte de alguns confederados representantes dos pais, prevalece a perspectiva economicista e de vistas curtas que tem norteado a actuação do ME. Escamoteando a sua dimensão pedagógica e reduzindo-o a uma questão egoísta e corporativa dos professores, o ministério tem-se dado ao luxo de ignorar olimpicamente o problema da falta de professores e das dificuldades crescentes na sua substituição. Até quando?…

3 thoughts on “3 anos, 7 professores

  1. As baixas – médicas no 1º ciclo

    Se consultarmos a listas RR, desde Setembro, verificamos que, no 1º ciclo, o número de horários temporários ( atestados) é – em percentagem – anormalmente elevado comparativamente aos outros grupos. Ora, a frágil saúde ( ?)) desta gente merece um olhar atento por “quem de direito”.
    Curiosamente, o primeiro surto surge logo na semana anterior ao … início das aulas! Prolonga-se – em força – nas quatro ou cinco semanas imediatas, mantendo-se até ao final num suspeito patamar . Ficam, em grande número, exaustos ainda mal tem começado o ano lectivo? Fobias?
    Outra curiosidade: o QZP7 é o mais afectado. Enganaram-se no concurso e … adoeceram?
    Em Julho, graças a Deus, vamos assistir a uma súbita recuperação da saúde. Só que, em Setembro, voltamos a uma brutal recaída. Vale uma aposta?
    Assim, claro, não chegam !
    (não ignoro que a idade tem o seu efeito, como já comentei. Mas … )

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    • A realidade é o que é: foram crescendo as exigências e degradando as condições de trabalho dos professores, ao mesmo tempo que se aumentou a idade da reforma. E se é verdade que muitos continuam, para lá dos 60 anos, a manter boa saúde e a corresponder aos desafios profissionais, também há casos de professores, até com bem menos idade, desgastados por doenças, diminuídos pelo stress profissional, pela indisciplina, o excesso de burocracia e por vezes até o assédio laboral promovido por algumas direcções escolares.

      Pessoalmente conheço casos, todos conhecemos, e não só no 1º ciclo, de colegas que se penosamente se vão arrastando, ano após ano, tentando chegar à idade necessária para obter uma aposentação não demasiadamente penalizadora. Um número crescente recorre à mobilidade por doença, que é uma forma de conseguirem serviços aligeirados nas escolas onde são colocados. Outros apresentam aos atestados médicos quando a barra se torna demasiado pesada. Contra isto, fazer o quê? De tempos a tempos vem uma revoada de juntas médicas e alguns regressam por algum tempo à escola, muitas vezes em situações bastante penosas, para logo que possível voltarem a ficar de baixa. Parece-me óbvio que isto não se resolve por meios punitivos ou administrativos, embora deva haver sempre um controle para evitar, tanto quanto possível, os abusos.

      Creio que a solução é óbvia e conhecida há muito tempo: é necessário reabrir a profissão aos jovens professores, melhorando as condições dos concursos, aumentando as vagas, promovendo a estabilidade profissional e o acesso à carreira. As escolas precisam de gente jovem, há um passar de testemunho geracional que é fundamental em todas as organizações complexas e as escolas não são uma excepção. Em paralelo, deveria ser facilitado o acesso à aposentação a quem está notoriamente diminuído para continuar a trabalhar numa profissão tão exigente como a de professor. E estudadas formas de integrar todos os que podem ainda dar um bom contributo à sua escola, mas já não aguentam o ritmo de um horário lectivo a tempo integral.

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  2. Seja como for, caro A. Duarte, estamos perante um caso surpreendente : amiúde, quase metade do total das baixas semanais – e não são poucas – pertencem ao 110 !!
    Um “bom exemplo” na RR29 desta semana (ver blog Dearlindo) . Isto sucede ano após ano , com um saldo de milhares de atestados.
    Nada me move contra estes docentes. Porém, esta insólita situação tem de ser bem analisada, atendendo aos graves prejuízos que daqui decorrem – para os alunos e … para o erário público.

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