Leituras: A Educação como bem comum

Após mais de sessenta anos de hegemonia neoliberal, confirma-se a falsidade das suas abordagens e da teoria do capital humano. As crises sucessivas do capitalismo neoliberal mostraram que não houve um crescimento contínuo da economia, nem os lucros crescentes das grandes empresas se espalharam pela sociedade como um todo. O capitalismo encontrou outras formas de continuar com os seus lucros através da precarização do trabalho ou especulando com a economia financeira.

Nada, portanto, de cada vez mais empregos, cada vez mais qualificados, com melhores salários. Os diplomados do sistema educativo, mesmo aqueles que obtêm graus universitários, eternizam-se na precariedade.

Por outro lado, mas em paralelo, a educação, à força de se submeter ao que se dizem ser as necessidades dos negócios, tem vindo a perder a capacidade que deveria ter de contribuir para a leitura da realidade, para nos ajudar a compreender o que nos está a acontecer a nível planetário e local, para unir o pessoal e o geral. De uma forma cada vez mais naturalizada, vai-se abandonando este objectivo essencial da educação que é ensinar e aprender para apenas examinar e ser examinado, obter um diploma ou uma acreditação que, paradoxalmente, nem sequer conduz a um emprego digno (suficientemente remunerado, estável, que permita a realização da pessoa pondo em prática os seus conhecimentos).

Vale a pena perguntar então se uma educação pública baseada na ideia de educação inclusiva ou igualdade de oportunidades faz sentido para proporcionar uma educação que conduz em boa parte à precariedade? Tem sentido uma educação pública baseada na ideia de educação inclusiva ou igualdade de oportunidades quando o que se consegue é uma educação com tão pouca capacidade para ler as nossas próprias vidas?

Creio que a chamada crise da Covid, que não é mais nem menos do que uma nova crise do neoliberalismo, deveria ter-nos feito tomar um caminho diferente. Esta crise, que revelou as misérias do sistema capitalista neoliberal em muitos aspectos, também o fez no campo da educação.

Que uma crise civilizacional como a actual não tenha produzido um debate generalizado em todos os campos do conhecimento; que as universidades não tenham lançado e protagonizado a reflexão necessária sobre a docência e a investigação para tentar enfrentar as questões levantadas pelo planeta a nível geral e local; que não se tenha revisto radicalmente o catálogo de profissões e as prioridades a estabelecer em termos do seu desempenho e da nova formação relevante; que não se questione de forma imediata o que se estuda e como se estuda no ensino obrigatório quando é evidente que não promove um exercício informado da cidadania, numa altura em que enfrentamos decisões incertas que exigem a participação de todas e todos; que as instituições educativas não exigem e o Estado não prevê uma intervenção directa para ligar a formação ao emprego, a fim de combater a crescente precariedade dos diplomados do sistema educativo; que, no entanto, o principal problema para a educação, nestes tempos de crise económica, política e social, pareça ser, não a ausência de reflexão e questionamento do papel que a educação pública está a desempenhar como contributo para o bem comum, mas sim continuar o mais rapidamente possível com o mesmo que tem vindo a fazer, não perder tempo numa corrida para lado nenhum ou que a fractura digital não deixe os vulneráveis para trás numa competição sem sentido, ou seja, que não são deixados para trás numa espécie de consumismo educativo, diz muito sobre a hegemonia que o pensamento neoliberal ainda tem na educação.

Explica também, entre outras coisas, o papel que ideias como a educação inclusiva ou a igualdade de oportunidades estão realmente a desempenhar neste contexto. E, acima de tudo, diz-nos quanto falta pensar, discutir, pesquisar, deliberar, trabalhar em teoria e na prática, a fim de desenvolver a educação pública como bem comum.

Versão parcial, traduzida e adaptada, de César A. Cascante Fernández, La educación como bien común.

8 thoughts on “Leituras: A Educação como bem comum

  1. Inclusão baseada na igualdade de oportunidades, não “deixando para trás” todos aqueles que possuam capacidades para superar com mérito o ensino formal, é uma coisa ; outra coisa bem diferente é “obrigar” a permanecer na Escola aqueles que não possuem as capacidades necessárias para tal, nada aprendendo, e no fim, graças a umas “adequações”, ser-lhes outorgado um certificado “falso”. Para enganar quem?
    Estes não poderão ser excluídos, evidentemente . Mas seria de bom tom explorar “outras” capacidades que manifestem, orientando-os para uma formação profissional inserida no mundo do trabalho. Como, aliás, é feito noutros países . O resto é conversa.
    De contrário, levamos estes seres a perderem pau e bola.

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    • É preciso, a um nível crítico, politizar a análise da educação, pois é a própria educação, em termos da sua formatação e, sim, também da sua leccionação, que está ideologicamente politizada. Há quem entenda a docência como uma missão ao serviço do “sucesso” a todo o custo (nomeadamente com o custo de desvirtuamento do próprio sentido do conceito), eu entendo a educação como uma missão de libertação dos alunos. Não é fácil levá-la a cabo, pois pouquíssimos são aqueles que querem a liberdade, na verdade, confundem-na com o seu contrário, com uma versão falsificada (ainda ecoam na minha mente as vozes da multidão festiva a gritar”Liberdade” em Barcelona).
      Mais uma vez, saúdo o António Duarte por fazer publicações de partilha de textos, como esta, assim como os textos lúcidos da sua autoria.

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  2. A situação é hoje bem mais grave do que possamos imaginar. Não só o capitalismo continua a trilhar o seu caminho (o do lucro) como também já se encontra a montante da própria Educação. O objetivo é considerado pelos investigadores e filósofos como “estratégia que leva as novas gerações a amar a sua servidão”. Para isso precisam de os domesticar desde cedo, na escola, portanto. O ensino tradicional (livresco) é perigoso porque leva os alunos a abandonar o consentimento cognitivo e com isso a pensarem. Não ensinar nada é hoje o objetivo do neoliberalismo. Daí o surgimento da escola do século XXI, o perfil do aluno, a flexibilidade, a cidadania, as DAC, o ensino por competências, a avaliação MAIA. Tudo menos aulas.

    Como dizia, o capitalismo já se encontra a montante da própria Educação, ora leiam:

    ME Decreto-Lei n.º 55/2018, de 6 de julho
    Por outro lado, a sociedade enfrenta atualmente novos desafios, decorrentes de uma globalização e desenvolvimento tecnológico em aceleração, tendo a escola de preparar os alunos, que serão jovens e adultos em 2030, para empregos ainda não criados, para tecnologias ainda não inventadas, para a resolução de problemas que ainda se desconhecem. Nesta incerteza quanto ao futuro, onde se vislumbra uma miríade de novas oportunidades para o desenvolvimento humano, é necessário desenvolver nos alunos competências que lhes permitam questionar os saberes estabelecidos, integrar conhecimentos emergentes, comunicar eficientemente e resolver problemas complexos.

    OCDE The future of education and skills Education 2030
    We are facing unprecedented challenges – social, economic and environmental – driven by accelerating globalisation and a faster rate of technological developments. At the same time, those forces are providing us with myriad new opportunities for human advancement. The future is uncertain and we cannot predict it; but we need to be open and ready for it. The children entering education in 2018 will be young adults in 2030. Schools can prepare them for jobs that have not yet been created, for technologies that have not yet been invented, to solve problems that have not yet been anticipated. It will be a shared responsibility to seize opportunities and find solutions.

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    • É notória, desde sempre, a sintonia de discursos deste governo e da OCDE, da qual João Costa é, aliás, um dos dirigentes. Mas nunca me tinha apercebido de que o preâmbulo do “55” é uma tradução tão fiel do arrazoado vertido num dos relatórios da organização.

      Obrigado pela oportuna demonstração!

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      • “Isto” merece um severo reparo : o legislador plagiou !!

        Plagiou, pura e simplesmente, visto não ter revelado a fonte nem ter usado o grafismo ou a fórmula indicando tratar -se de uma citação. Tomou o excerto como sendo da sua lavra, à boa maneira dos plagiadores de “teses” ou de um imberbe aluno abrangido pelo “55”. Bonito…

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        • Sim, é plágio. Esta promiscuidade já tem algum tempo. O próprio documento do PASEO é todo ele uma cópia de outro documento da OCDE. A professora Helena Damião da UC não se tem poupado a esforços no sentido de demonstrar a “pouca vergonha”: a OCDE como tutela da Educação em Portugal.

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          • Claro que, quem assinou o “55” (PR , PM), assinou de cruz. Confiou. Agora, a criatura a quem chamei de legislador merece um valente puxão de orelhas por tamanha irresponsabilidade e … deslealdade. Nunca pensei que, neste tipo de documento legal , tal pudesse acontecer. Fico a saber.
            Oxalá este caso chegue ao nariz dos subscritores do dito. Ficariam a saber com quem lidam.

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