Endoidou de vez?

A idade costuma servir de desculpa para muita coisa, mas não faltam exemplos de filósofos, cientistas sociais ou historiadores mais velhos do que Barreto e perfeitamente lúcidos. O que a idade talvez potencie é alguma falta de filtro que está a revelar, do homem, aquilo que sempre foi. Proporcionando ao jornal que o entrevistou um corrilho de disparates para preencher a primeira página.

Ainda assim, vale a pena prestar um pouco de atenção ao que diz Barreto, pois não são apenas as tolices de um velho caturra: a tentativa de reabilitar a justiça do Estado Novo não tem ponta por onde se pegue, mas tem-se insinuado tanto por via da direita chegana como pelos autoproclamados liberais. Um branqueamento que implica passar uma esponja pelas invasões nocturnas dos domicílios pela PIDE, as prisões políticas sem julgamento, o recurso habitual à tortura, os tribunais plenários onde os réus chegavam a ser espancados na presença dos juízes coniventes com a farsa judicial.

Mas sim, nesse tempo os pobres viviam muitas vezes em casas sobrelotadas, barracas ou onde calhasse e não passaria pela cabeça de nenhum governante preocupar-se com a sua saúde ou condições de vida. Muito menos mandar realojá-los em bungalows desocupados.

5 thoughts on “Endoidou de vez?

  1. Do António Barreto ficou-me uma entrevista há largos anos, onde o sociólogo afirmou desconhecer as causas porque as mulheres estavam a ingressar mais nas universidades do que os homens.
    Compreende-se que o sociólogo tem grande capacidade de involuir.

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  2. O título do SOL não pode ser apreendido de forma “descontextualizada” .
    Lendo com atenção o excerto da entrevista referente à Justiça , constata-se que A. Barreto não faz a apologia da justiça salazarenta – evidentememte. Verbera, até( outra coisa não seria de esperar) aquelas tristes e conhecidas particularidades . O que “elogia”, sim, são aspectos que hoje em dia estão, infelizmente, muito arredados e na época existiria, ainda assim , maior decoro .(ler o que refere relativamente à advocacia, juízes etc.)

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  3. Se ler a entrevista sem filtros ideológicos, vulgo “palas” verifica que o que foi não se resume a frase de manchete.
    Demais considerações pessoais só definem quem as profere.

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  4. Atento às críticas, fui ver com mais atenção a extensa entrevista, aqui.

    É evidente que desenvolve mais do que os soundbytes das manchetes, mas não altera a ideia que mantenho de AB, um olhar cada vez mais preconceituoso e menos fundamentado sobre a realidade. Diz que a justiça do antigamente era melhor, mas não explica porquê. É o velho estilo das frase tonitruantes mas com pouca substância. Comparar o incomparável – a justiça num estado democrático com a de uma ditadura – acaba por ser um exercício inútil para compreender as coisas, mas tem o tal efeito branqueador sobre um passado de que Barreto se sente cada vez mais próximo. É evidente que o homem, a sua família e o meio em que se moviam sentiam a segurança de uma justiça defensora do seu património e dos seus interesses.

    Seguindo a mesma lógica também poderia afirmar, não andando longe da verdade, que tinha maior qualidade a sociologia portuguesa dos finais do Estado Novo, que estava então nos seus primórdios mas procurava afirmar-se com a competência e empenho dos seus fundadores, desta sociologia de hoje, subordinada à agenda promovida pelos “tanques-de-pensar” patrocinados por empresas e fundações. Fará sentido a comparação?…

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  5. Evidentemente que estes títulos de jornais têm o objectivo de chamar a atenção para a leitura.
    Fui ler e verifico que A. Barreto diz que só se deprime com o que não sabe.
    Como repete várias vezes, especialmente no início da entrevista, “Não sei”, ” Não tenho resposta para isso”, “Oscilo bastante”,temos que A. Barreto está ligeiramente deprimido.
    No entanto, vai sendo cada vez mais “confiante” nas respostas, mas sempre na linha de pensamento – olhem, isto ou é A ou B. Mas não sei como vai ser……
    Fala dos países que viveram em ditaduras e que se tornaram mais “liberais” e que nos ultrapassam já, quando antes refere :”Não posso dizer que esteja inquieto, mas interrogo-me muitíssimo sobre o trabalho – quer o manual, quer o técnico, e até o trabalho qualificado. Com o tempo, com a tecnologia, com os sistemas automáticos, com a computação, com tudo isso, tem vindo a perder complexidade, tem vindo a perder dignidade, tornou-se um mero fator de produção, que se pode cortar às fatias e em salame.(…)”
    Já bastante baralhada, salto os feriados, a mitologia do 25 de Abril e chego à parte da justiça:
    “O problema antigamente era o Ministério Público, que era político, era a Justiça política, dos plenários, os tribunais administrativos, a Justiça económica… tudo isso era do piorio. Mas no aspeto central a Justiça no Antigo Regime era melhor do que agora.(…)”
    E ainda tento compreender o “aspeto central” que era melhor.
    Como não sou da área nem socióloga, “Não sei” “Não tenho resposta para isso”e “Oscilo bastante”.
    Uma entrevista para promover livros, quando o país precisa de intelectuais com visão e respostas.

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