História só para as elites?

Alguns dos maiores nomes britânicos no campo do ensino da História estão a avisar que a disciplina poderá estar em risco de se tornar um curso para as elites, depois de duas universidades modernas terem anunciado planos para encerrar os seus cursos de História.

A Universidade de Aston em Birmingham e a Universidade do South Bank de Londres informaram o pessoal no mês passado que estariam a reduzir os seus cursos de história. Aston está a estudar planos para encerrar todo o seu departamento de história, línguas e tradução, e a South Bank de Londres afirmou que os seus cursos de História e Geografia Humana não irão recrutar a partir deste Outono.

O desinvestimento nos cursos de História, e das Ciências Sociais, Línguas e Humanidades em geral não é uma tendência nova. Inscreve-se na crescente procura de cursos socialmente mais valorizados e com maior empregabilidade, geralmente nas áreas das ciências, tecnologias, engenharias e matemáticas – as chamadas STEM. No Reino Unido, o fecho dos cursos de História nas universidades mais pequenas e de acesso mais fácil poderá tornar o seu estudo, num futuro próximo, acessível apenas a uma elite.

E, no entanto, a História, tal como a literatura ou a filosofia, é fundamental para entender o mundo em que vivemos. Os académicos ouvidos para a peça do Guardian não escondem a perplexidade e a preocupação. Mas a verdade é que esta incompreensão do sentido e da utilidade da História não é apenas uma excentricidade de alguns britânicos. A ideia absurda da História como uma disciplina que se limita a coleccionar factos desconexos referentes ao passado e a cultivar patriotismos fora de moda parece ter seguidores também entre nós, tanto nas universidades como no ministério da Educação. Claro que a História dos nossos dias em nada se identifica com a caricatura feita pelos seus detractores; pelo contrário, é uma das disciplinas que mais e melhor promove o pensamento crítico que agora se diz querer valorizar.

Curiosamente, são os mesmos que verberam o “conhecimento enciclopédico” veiculado pela História e por outras disciplinas clássicas que aparecem depois a defender aulas de Cidadania para abordar, de forma avulsa e desgarrada, matérias como a Constituição ou os Direitos Humanos, que sempre fizeram parte dos programas de História, onde são abordadas de uma forma compreensiva, estruturada e organizada.

Há muitas diferenças entre o governo conservador britânico e o socialista em Portugal. A realidade académica é também bastante distinta nos dois países. Mas na desvalorização da História em detrimento de áreas científicas mais rentáveis e cursos profissionalizantes nota-se uma notória convergência de vontades. Será apenas coincidência?…

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