Madrid, campeã da segregação escolar

O periódico espanhol elDiario, que publica com regularidade excelentes peças sobre a Educação, analisa, à luz de dados internacionais, a política educativa na comunidade de Madrid, onde decorrerão amanhã eleições antecipadas. A actual presidente, Isabel Ayuso, é a mais do que provável vencedora, devendo manter-se no cargo através de um acordo pós-eleitoral do Partido Popular com o Vox, formação de extrema-direita que lhe poderá proporcionar os mandatos que faltam para a maioria absoluta. Mas estas não são boas notícias para a Educação…

Se Madrid fosse um país, só a Turquia segregaria mais os seus alunos de acordo com a sua origem socioeconómica. Por outras palavras: a região presidida por Isabel Díaz Ayuso separa (ou agrupa) os seus alunos de acordo com a sua classe social mais do que qualquer outra em Espanha e está entre as mais segregadas de todo o mundo desenvolvido, de acordo com o estudo realizado por Save the Children e Esade. […]

A Espanha como um todo não se sai muito melhor, em parte devido aos dados de Madrid, que puxa a média para cima. O país é o terceiro mais segregado da OCDE, ultrapassado apenas pela Lituânia e Turquia, acrescenta o texto. No outro extremo de Madrid destacam-se pela sua menor segregação, La Rioja e Cantabria, com números que são metade dos de Madrid. Também destaca o trabalho de regiões como estas duas mencionadas ou a Catalunha e as Astúrias, que conseguiram reduzir a sua segregação desde 2015. Em Madrid, a terra da liberdade de escolha, ela cresceu tanto no ensino primário como no secundário. Os pobres estão cada vez mais com outras pessoas pobres e os ricos estão cada vez mais com outras pessoas ricas.

A segregação escolar é um problema grave em Espanha, que radica numa política de financiamento público em larga escala de escolas e colégios privados, activamente promovida por sucessivos governos. É uma herança do franquismo, que encontrou aqui uma forma de financiar com dinheiro público as instituições religiosas, em troca da prestação de serviços educativos, que a democracia não enjeitou.

Este ensino concertado tem um claro paralelo com os contratos de associação que, a determinada altura, também proliferaram entre nós. Só que enquanto em Portugal esta política foi revertida a partir de 2015, restringindo-se a celebração de contratos aos casos de carência ou insuficiência da escola pública, em Espanha a maioria das regiões apostam na liberdade de escolha e na concorrência aberta entre público e privado. O resultado, claro, é que os alunos mais favorecidos, de famílias com maiores aspirações, acabam ir para escolas privadas, enquanto os filhos dos pobres e dos imigrantes se integram na escola pública.

Apesar de beneficiarem de uma lei particularmente generosa, os colégios conseguem ir ainda mais longe: muitos deles, com a complacência das autoridades educativas, cobram diversos pagamentos às famílias por um ensino que, sendo financiado pelo Estado, deveria ser gratuito. Uma prática ilegal com duas vantagens óbvias: aumenta os proventos das instituições e forma uma barreira suplementar de exclusão de alunos sem recursos económicos. Na região de Madrid, onde o favorecimento dos privados parece render votos, chegou-se mesmo ao ponto de ceder gratuitamente terreno público para a construção de colégios em vez de se construírem as escolas públicas necessárias.

Com a previsível vitória da direita em Madrid, tudo indica que as contestadas políticas da senhora Ayuso, na Educação e noutras áreas, serão para continuar.

One thought on “Madrid, campeã da segregação escolar

  1. Lá como cá, a qualidade do ensino público está em declínio. Por isso, não espanta que um pai ou uma mãe, zelando, naturalmente, pelos interesses e futuro do seu filho procure uma “instituição” que lhe garanta um equilibrado ambiente, propício às aprendizagens e formação geral a que tem direito e o “contingente geral” lhe nega . Nem que para isso tenha de “tirar da boca” , como está acontecendo (cá e lá).
    Isso é segregação ? Quantos dos que verberam a dita segregação colocam os seus filhos nas escolas do Cerco do Porto ou na Pedreira dos Húngaros?
    Pois, pimenta no … dos outros é refresco.

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