Professores: do que temos ao que queremos

Os nossos jovens, bem informados e cientes da realidade, não se encontram motivados para abraçar a carreira docente, dado a instabilidade que a caracteriza, acrescendo a certeza de virem a lidar com constrangimentos e injustiças várias, que contribuem marcadamente para a tornar pouco aliciante e/ou rentável; Não se estranha, assim, que os cursos universitários via ensino não registem candidaturas ou que estas se concretizem na insípida narrativa dos números. Vislumbram-se alternativas com maior índice de oportunidades de sucesso e realização noutros cursos que os demovem de ingressar nesta tão nobre e imprescindível profissão.

Numa mesma lógica de evidências, os professores que se encontram no ativo recorrem, cada vez mais, à licença sem vencimento de longa duração, que lhes possibilita experimentar outras áreas de atividade, na tentativa de garantirem melhores condições de vida e uma profissão gratificante onde as funções que desenvolvem mais comummente são reconhecidas.

É ético um país, onde a escassez de docentes é visível, tratar assim os seus professores?

E, porque não há duas sem três, sentimo-nos estupefactos e impotentes perante a tirania e ingratidão do sistema educativo em relação aos professores contratados!

Tirano, pois, a 31 de agosto de todos os anos, descarta-se destes profissionais, empurrando-os para o desemprego. E, na maioria dos casos, volta a necessitar deles poucos dias volvidos, quantas vezes acenando-lhes com horários completos e anuais.

Filinto Lima mostra-se demasiadas vezes contemporizador, nas suas intervenções públicas, com as políticas educativas do Governo, incluindo aquelas que desrespeitam os direitos e a dignidade profissional dos professores e que vão infernizando o quotidiano docente. Contudo, em Dia do Trabalhador, lá lhe ocorreu evocar os trabalhadores que os professores também são – e equacionar o futuro cada vez mais comprometido da profissão.

As constatações que faz, não sendo novidade, são pertinentes. A docência é actualmente uma profissão atolada em burocracia, que desgasta e rouba tempo aos professores para o essencial, que é o que melhor sabem fazer: ensinar. As regras que durante décadas nortearam a profissão e trouxeram estabilidade e previsibilidade à gestão da carreira vão sendo postas em causa por procedimentos injustos, arbitrários e penalizadores nos concursos, avaliações do desempenho e distribuição de serviço. Apesar do acentuado envelhecimento da profissão, continuam a não se vislumbrar medidas para atrair e fixar novos professores, insistindo-se em contratações precárias que além de penalizam os docentes também não servem os interesses das escolas e dos alunos.

No entanto, a falta de professores é uma realidade para a qual vamos, de ano para ano, tendo sinais cada vez mais abundantes e evidentes. Os cursos de formação de professores há muito deixaram de ser atractivos. Para quem precisa de um salário ao fim do mês, um contrato de seis meses num supermercado perto de casa é certamente mais compensador do que um horário docente incompleto e temporário a centenas de quilómetros de distância. Com o ritmo das aposentações a aumentar e o da formação de novos professores a diminuir, não faltará muito para que deixe de haver professores qualificados em número suficiente para acudir às necessidades do sistema. Se nada for feito entretanto, assistiremos em breve ao regresso às escolas de professores improvisados, com habilitações suficientes e mínimas, uma realidade comum há 20 ou 30 anos que se pensaria estar definitivamente ultrapassada.

O tempo urge, mas ainda haverá margem fazer as reformas necessárias no regime de quadros, concursos e contratações que possam satisfazer as necessidades a médio prazo do sistema educativo. Mas o Governo continua a ignorar a realidade, limitando-se a gerir o quotidiano e a rejeitar todas as propostas para resolver os problemas que vai empurrando com a barriga. Até quando?…

One thought on “Professores: do que temos ao que queremos

  1. A formação inicial dos professores terá de ser repensada, e bem repensada : no que respeita aos curricula e… à duração.

    a ) Os planos de curso deveriam conferir menos peso àquelas “ciências ” , revertendo o tempo “ganho” em favor da componente científica – domínio onde muitas vezes são detectadas assinaláveis lacunas.
    b) a duração deve ser encurtada : sem desprimor, fará algum sentido um futuro educador de infância ou docente do 1º ciclo passar quatro anos na “estufa” ? Metade não seria suficiente? Teremos de considerar que estes futuros profissionais acedem ao curso com o 12º ano e não com o 5º de antanho.
    c) Idem relativamente ao 2º ciclo – a” bagagem” que levam do Secundário, designadamente nas disciplinas específicas do curso ou variante a frequentar , acrescida de mais 2 anos para reforço ou adequação , não seria suficiente para responder às exigências científicas da matéria a ensinar neste nível de ensino? Quatro anos (4 ) é demasiado, a não ser para dar emprego aos medianos professores das eses.
    d) Já para o ensino Secundário, atendendo às suas especificidades, a duração terá de ser superior (mas não 5 anos).
    (Em todos os níveis, a formação didactico- pedagógica poderia ser reforçada (reforçada) já no exercício da profissão, contando-se aqui com a colaboração do respectivo coordenador e/ou outro experimentado docente, mobilizando-se para este fim “aquelas” horas que os docentes são obrigados a derreter ingloriamente) .

    Pormenor que passa despercebido é o excessivo tempo desbaratado com as “brincadeiras” (sem querer privar a juventude de alguma farra). Um desperdício!.Ele, são as semanas gastas nas recepções ao caloiro, praxes estúpidas , latadas e afins ; ele, são as queimas, que queimam demasiado (demasiado) tempo na preparação e nas festividades ; ele, são as inexplicáveis férias semestrais para testar em exame a, muitas vezes, escassa e pouco complexa matéria . É só fazer as contas. Vejam quantas semanas se perdem ao longo do curso. (
    Se boa parte deste tempinho fosse dedicado ao que interessa e não desperdiçado, encontrar-se-ia mais uma razão de peso para encurtar a duração dos cursos, sem afectar a sua qualidade.
    Ai se os srs. professores das eses e universidades me ouvem!!

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