A Educação na encruzilhada

Quarta-feira, a minha filha mais velha participou na segunda eliminatória das Olimpíadas da Matemática deste ano, categoria júnior, correspondente ao 6º e 7º ano. Quando chegou a casa, claro, obrigou-me a resolver com ela a prova para poder aquilatar as probabilidades de chegar à final. A prova era interessantíssima (parabéns aos seus autores), exigindo alguns conhecimentos de Matemática — não muito avançados, diga-se — e bastante destreza de raciocínio. E, mais uma vez, pude confirmar o que já sabia: o ensino atual é bem mais exigente do que era há umas décadas e exige das crianças bem mais do que boa memória.

O preconceito de que o ensino “antigamente é que era bom” está solidamente enraizado em muitos portugueses, sobretudo nas gerações mais idosas. Mas não corresponde à realidade. É tão erróneo como o seu oposto, a presunção de que, graças à exposição cada vez mais precoce das crianças à novas tecnologias, elas aprendem automaticamente, com prazer e sem esforço, transformando-se em pequenos génios imersos no mundo digital.

É evidente que se ensina e aprende melhor do que há décadas atrás: mal fora que a Educação tivesse ficado de fora dos progressos generalizados que a humanidade conheceu a todos os níveis. Faz tanto sentido a saudade do ensino de há 50 anos como faria ansiarmos por viver o nosso quotidiano com os automóveis, o conforto doméstico, os meios de comunicação ou os tratamentos médicos disponíveis nesse tempo. Claro que a educação não está tão dependente da tecnologia como outras áreas, mas não deixou igualmente de evoluir.

Essa evolução fez-se pela identificação das aprendizagens verdadeiramente essenciais e estruturantes, em vez de um ensino tornado difícil pela memorização de informação muitas vezes irrelevante. Mais do que classificar alunos, procura-se que a avaliação identifique as falhas e dificuldades de aprendizagem, de forma a definir estratégias de superação. E os currículos escolares tornaram-se mais abrangentes – por vezes até com algum excesso – procurando não apenas transmitir conhecimentos mas desenvolver competências e alargar horizontes.

Contudo, apesar dos progressos evidentes, há que moderar o optimismo que noto na prosa de Luís Aguiar-Conraria. Desde logo, porque nada está adquirido para todo o sempre. Depois de duas décadas de progressos graduais, mas sustentados, da Educação portuguesa, visíveis nos resultados dos nossos alunos nos principais testes internacionais, as mudanças insensatas e irreflectidas dos últimos anos abriram caminho ao facilitismo – e isso começa a ser visível nalgum declínio das prestações dos alunos, já notório nas últimas avaliações feitas antes da pandemia.

Por outro lado, num sistema de ensino massificado, a necessidade de construir uma oferta educativa universal e inclusiva colocará o eterno dilema: deve apostar-se em programas e currículos exigentes, correndo o risco de excluir quem não consegue corresponder, ou moderar a ambição, priorizando conteúdos e estratégias pedagógicas ao alcance de todos, com menos matéria leccionada mas melhor socialização, mais afectos e muito trabalho colaborativo e de projecto? Nuno Crato, enquanto ministro, optou decididamente pela primeira hipótese – e criou, para os excluídos do rigor e exigência propalados, o refugo educativo dos cursos vocacionais. Já com o actual governo, inclusão parece ser a palavra de ordem. Mas sem um reforço dos recursos educativos disponíveis nas escolas, a inclusão obrigatória e o direito ao sucesso a qualquer preço poderão ter um custo muito elevado: o declínio inexorável da escola pública.

9 thoughts on “A Educação na encruzilhada

  1. É difícil conceber conhecimentos sem competências e vice -versa.
    É difícil conceber o que se ensinava e como há 50 anos.
    A massificação do ensino trouxe desafios importantes à escola.
    Infelizmente, trouxe algo que nos tem perseguido- os experimentalismos pedagógicos – que vão e voltam em círculo vicioso, entropiando tudo, fazendo perder tempo, não reflectindo sobre nada e estonteando tudo e todos.
    E, sim, os alunos estão melhor preparados.
    Devem-no aos professores que pensam e não desistem.

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  2. “os alunos estão melhor preparados”

    Principalmente a Língua Portuguesa (oral e escrita ) , caramba!
    Abolidos os exames, ou pontualmente substituídos por pindéricas e duvidosas “aferições”, como poderemos – com alguma objectividade – aquilatar da qualidade do ensino em Portugal?
    Só com exames “sérios” de fim de ciclo! Não da estirpe dos exames nacionais do Secundário do ano lectivo anterior, que ditaram resultados “retumbantes”. Enganos, né?

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  3. “Só com exames “sérios” de fim de ciclo! ”
    Da objectividade dos exames.
    Confesso que não acredito em exames sérios de fim de ciclo. Até posso vir a mudar de opinião, sei lá. Como diz o grande Camões, “Toda a vida é composta de mudanças
    Tomando sempre novas qualidades”
    Não sei se já vos contei este episódio. Aqui vai.
    O meu filho mais velho sempre escreveu muito bem e sempre compreendeu bem o que lia. No exame de Português do 12º ano, sai-se com uma classificação de 12 ou 13 valores, já não me lembro.
    Peço para rever a prova e confirmo que o rapaz escreve muito bem.
    Leio o poema, as perguntas e as respostas dadas. Azar dos azares, o rapaz faz uma leitura quiçá diferente da dos critérios de correção, justificando o porquê. Toma lá um zero que é para não seres parvo!
    Vou para o texto escrito. Tudo muito bem escrito-ortografia, sintaxe, vocabulário variado e mais tudo. Agora o problema foi não ter mencionado muito directamente um dos itens pretendidos. Como aquelas redações sobre as vacas em que se escreve sobre as maravilhas das ditas (hoje já não seria assim tão evidente….) mas se esquece de escrever “Eu gosto muito das vacas”.
    Recurso feito e a classificação sobe 3 valores. Se subisse mais aquilo teria de ir para outras instâncias e não estava para isso.

    Dois anos depois, vai o mais novo. Exame de Português de 9º ano. Nível 2 (49%). Mas o rapaz sempre foi muito sucinto a escrever……
    Embalada, e porque estava a dar-me um certo prazer, confesso, lá vai mais um recurso.
    Passa para Nível 3! Mais uma vez, o problema do texto longo. Desta vez é como as redações que terminam em “eu gosto muito das vaquinhas”, mas esqueceu-se de dizer que as vaquinhas são muito lindas e fazem MUUUUUU.

    Enfim, os exames são, muitas vezes parvos, porque os critérios de avaliação são parvos. Ao ler as questões parvas que muitos professores correctores colocam nas plataformas de dúvidas, a gente tem a ideia que é tudo parvo. Mais parvo ainda, é quando a resposta vem com um “aguarde que fomos perguntar ao júri e já respondemos”.

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  4. Ups, alonguei-me….

    Quanto às reais dificuldades na língua portuguesa, arranjem-se estratégias exequíveis, tempo e condições para as implementar e as avaliar.
    Aproveite-se, e inscrevam compulsivamente nestas aprendizagens perdidas, todos os jonalistas, políticos, médicos, advogados e tudólogos do burgo que repetem à exaustão o verbo “tar”, o “tamém”, o “OK”, os “cidadões” o “à” em vez do “há” (hello, professores, esta é para vocês) e mais o “númaro”, etc…..

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  5. Em suma, dois filhos medianos, que apanharam dois professores mais rigorosos e depois a bandalheira das reapreciações.

    A finalizar, porém, dá razão à Maria. É desnecessário ser tão incongruente.

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  6. As Olimpíadas da Matemática não será o melhor exemplo para falar da exigência do ensino em Portugal. De qualquer modo, penso que os programas não se tornaram menos exigentes ao longo dos anos.

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    • Verdade, às Olimpíadas irão à partida os melhores alunos na disciplina tendo as provas, naturalmente, um critério selectivo e competitivo. Não faz sentido tomar isto como modelo do que são os programas ou o nível médio das aulas de Matemática. E o mesmo raciocínio se aplica a qualquer outra disciplina…

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