Diz que é para “ouvir as escolas e os professores”

A mensagem do SE João Costa foi enviada a todas as escolas e agrupamentos:

Exmo(a). Sr(a). Diretor(a) de Agrupamento/Escola não Agrupada

Conforme foi noticiado, o Ministério da Educação está a preparar um Plano de Recuperação das Aprendizagens 21/23, sendo importante ouvir também as escolas e os seus professores.

Do ponto de vista metodológico, este trabalho de auscultação será efetuado em cadeia, contando com a importante colaboração dos Centros de Formação de Associação de Escolas (CFAE).

1. Ao nível de cada Agrupamento/Escola não agrupada, pede-se que cada Conselho Pedagógico, através dos Departamentos Curriculares, proceda a uma identificação das aprendizagens mais afetadas e  comprometedoras de aprendizagens futuras.

2. Em reunião de Comissão Pedagógica de cada Centro de Formação, será feita uma recolha e síntese das propostas das escolas aí representadas.

3. Em reunião dos Diretores dos Centros de Formação, ao nível de cada região, será feita a síntese das propostas das escolas dos respetivos centros.

Sendo certo que também o calendário nos obriga a um esforço de síntese, cada diretor de CFAE em articulação com o seu representante a nível regional, articulará o calendário localmente, de modo que este trabalho possa ser apresentado ao membro do governo em reunião, com os cinco representantes dos CFAE, a realizar no dia 6 de maio.

Li atentamente, e a minha perplexidade inicial só se desvaneceu porque já vamos conhecendo bem, infelizmente, o modus operandi que já é imagem de marca deste ministério: a desconfiança sistemática em relação aos professores, uma concepção burocrática do trabalho pedagógico e, na hora da verdade, o centralismo das decisões, numa rejeição clara da tantas vezes invocada autonomia das escolas.

Analisando o repto da perspectiva do professor no terreno, constato que o ME manda identificar as aprendizagens “comprometidas”, para que mais tarde o mesmo ME nos venha apresentar um plano para recuperarmos essas mesmas aprendizagens. Ora eu, ao longo de toda a minha vida profissional, recuperei aprendizagens, voltando a explicar e a exercitar o que não foi aprendido à primeira. Será que pensam que não o saberíamos fazer sozinhos? Acham que algum professor, que nunca deixou de trabalhar com os seus alunos durante o confinamento, vai ficar agora de braços cruzados à espera de instruções ministeriais para saber como planear a recuperação de aprendizagens que tenham ficado para trás?

Não seria mais simples e eficaz confiar no trabalho que estamos a fazer com os nossos alunos? Quem é que os conhece e sabe do que precisam, os seus professores ou os burocratas do ME, sob a chancela política de um ministro incompetente mas que precisa de continuar a justificar o cargo, o salário e o subsídio de residência? A autonomia das escolas, tão propagandeada noutros contextos, não, terá aqui inteiro cabimento? Claro que sim, mas isso não daria oportunidade à equipa ministerial de colher louros por conta do trabalho alheio.

E, no entanto, em vez de perturbar o trabalho dos professores com exigências disparatadas, haveria algo de muito válido que o ME poderia fazer. O principal problema decorrente do confinamento não passa pela enumeração de aprendizagens perdidas, mas pela constatação de que a pandemia agravou as desigualdades no acesso à educação. Os alunos que já tinham dificuldades ficaram ainda pior, e são estes alunos concretos, e não a produção de mais um relambório eduquêsmente correcto, que deveriam preocupar o ME.

Se estão realmente apreensivos com as consequências a prazo do confinamento e querem aprovar medidas para os próximos dois anos lectivos, então pensem a sério no reforço de meios para que as escolas possam, recorrendo ao apoio individualizado em sala de aula e a pedagogias diferenciadas, dar mais aos alunos que mais precisam. Isto passa, como é óbvio, pela possibilidade de formar turmas mais pequenas quando é necessário um acompanhamento mais eficaz dos alunos em dificuldades e pelo aumento dos apoios educativos necessários a estes alunos.

Se sabem o que devem fazer, mas não se chegam à frente, para que insistem em roubar-nos tempo que deveria ser dedicado aos nossos alunos, e que é gasto a produzir papelada para safar governantes incompetentes?…

4 thoughts on “Diz que é para “ouvir as escolas e os professores”

  1. Só para o ponto 1 estão a ser preparados esquemas, tabelas, diagramas e tudo o mais, em várias versões que se reduzem a uma metalinguagem e a uma redundância incríveis.
    Tempo perdido em papéis e mais papéis que serão preenchidos em copy e paste estéril.

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  2. Oh malta, os caramelos têm de apresentar serviço, seja qual for, mesmo redundante e desnecessário. É um pouco como as câmaras que, como se aproxima a época eleiçoeira, desatam a fazer obras da treta, rotundas, pilaretes e lombas absurdas. Qual o problema? Quem paga é o mesmo de sempre….

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  3. Huuum…
    Qual preocupação com os alunos, qual quê. O objectivo é apenas, e dentro do pedantismo ilusório habitual, a distribuição da “bazuca europeia”!

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  4. Penso que já ultrapássamos o limite do razoável e sem condições de trabalho não podemos iniciar o ano lectivo que vem, quanto mais recuperar não sei o quê, não percebo nada deste discurso a não ser o seu objectivo de agitar os encarregados de educação e mostrar resultados. Eu não sou professora nestes termos. Agora até agradeço não estar integrada na carreira, faço o que eu quiser, quando me apetecer. Boa sorte aos que se sujeitam a estas práticas desonestas e anti-pedagógicas, merecem o que vos impõem.

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