A dismorfia do snapchat

Os resultados do estudo internacional, a que responderam 510 raparigas portuguesas entre os 10 e os 17 anos, são inquietantes. Mas estão em linha com a tendência internacional e não surpreendem quem vai lidando diariamente com adolescentes e tentando estar atento ao que se passa nesta faixa etária. Vejam-se as principais conclusões da psicóloga que apresentou os resultados:

Cerca de metade das jovens portuguesas inquiridas dizem que desejavam sentir-se mais autoconfiantes e sete em cada 10 afirma que gostavam de ter mais orgulho no seu corpo, realçou.

Em média, passam mais de duas horas por dia nas redes sociais, sendo que devido ao contexto pandémico, 70% passou a estar ainda mais tempo.

Apenas 50% das inquiridas consideram que as redes sociais são um fator positivo nas suas vidas, enquanto 41% afirmam que não conseguem ser elas mesmas e 25% lamentam que na vida real não possam assemelhar-se à pessoa que mostram ‘online’.

Segundo o inquérito que decorreu em março, 76% das raparigas com 13 anos usam filtros ou recorrem a aplicações para mudar a sua aparência nas fotografias. Em média, têm 12 anos quando utilizam pela primeira vez este tipo de funcionalidades.

Quase dois terços dizem que tentam editar ou esconder pelo menos uma característica do seu corpo antes de publicarem uma fotografia e 86% afirmam que publicam “selfies” para receberem comentários e “likes”.

“Elas não referem que publicam “selfies” porque lhes dá prazer, porque é uma forma de se expressarem, de terem uma presença “online” de encararem uma personagem. Não, elas assumem que é com vista a serem aceites, a serem apreciadas e se sentirem integradas e populares“, sublinhou.

A busca obsessiva da imagem corporal perfeita configura um transtorno psicológico que baixa a auto-estima destas raparigas e as leva mesmo, nalguns casos, a querer fazer cirurgias plásticas para alterar as partes do corpo que acham imperfeitas. Os especialistas chamam-lhe a dismorfia do snapchat, por ter sido esta a primeira rede social a incorporar filtros de edição rápida que permitem aos utilizadores alterar o seu aspecto nas selfies que publicam.

Como a maioria das perturbações de natureza psicológica, este problema não é de resolução fácil, e é evidente que a exposição prolongada e cada vez mais precoce às modas e influências das redes sociais tende a agravá-lo. Muitas das youtubers, instagrammers, vloggers e influencers que servem de modelo e inspiração às adolescentes apresentam corpos irreais, modificados por dietas, sessões de ginásio, poses estudadas e, claro, filtros de imagem. Como no mundo real estes resultados são impossíveis de obter o resultado é a inevitável frustração e perda de auto-estima.

Esta realidade é igualmente perturbadora no que revela de regressão ao nível das mentalidades e do enorme progresso, feito nas últimas décadas, em prol da emancipação feminina e dos direitos das mulheres. Nunca se falou tanto, como nos dias de hoje, em igualdade de género. E no entanto as redes sociais parecem estar a atrair as raparigas, cada vez mais cedo, para a perpetuação de estereótipos associados ao “sexo fraco”, que fazem depender a aceitação social da sua beleza física e da capacidade de agradar aos outros.

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