É a desigualdade, estúpido!

Os alunos de origem imigrante têm resultados escolares significativamente abaixo dos alunos de origem portuguesa e são segregados mesmo dentro das escolas, que não fazem tudo o que podem para o evitar, segundo um estudo divulgado esta sexta-feira.

As conclusões constam dos resultados preliminares do estudo “Inclusão ou discriminação? Da análise dos resultados escolares às estratégias para o sucesso dos alunos com origem imigrante”, desenvolvido pela faculdade de economia da Universidade Nova de Lisboa, a Nova SBE, e o Centro Interdisciplinar de Ciências Sociais da mesma universidade, a pedido da Associação EPIS – Empresários Pela Inclusão Social.

Luís Catela Nunes, professor da Nova SBE e um dos investigadores que coordena o estudo, disse em entrevista à Lusa que há diferenças claras entre alunos nativos e alunos migrantes.

Curioso como, naquela que é talvez a mais elitista das escolas superiores públicas, se faz currículo a apontar a “segregação” e a “discriminação” alegadamente existentes nas escolas básicas e secundárias. Onde, ao contrário do que sucede na exclusivista “escola de negócios”, as portas estão abertas a toda a gente.

Não li o estudo do doutor Catela, encomendado pela conhecida associação dos empresários que pretendem combater a desigualdade e a exclusão nas escolas, em vez de o fazerem nas suas próprias empresas. Mas pelo que é descrito na peça jornalística, percebe-se que a suposta segregação escolar pouco ou nada tem a ver com a naturalidade das crianças e jovens que frequentam as escolas portuguesas. Estes alunos têm mais insucesso, acima de tudo, porque provêm de famílias pobres e/ou pouco instruídas, reproduzindo o mesmo padrão bem conhecido entre os seus colegas nascidos em Portugal.

Sabendo-se que a pobreza, as más condições de vida e a discriminação social e laboral têm maior incidência entre algumas comunidades imigrantes do que na população em geral, é perfeitamente expectável que tanto o insucesso escolar como o sucesso fictício do passar sem aprender – que parece agradar a demasiada gente – sejam maiores entre os alunos que vieram do estrangeiro.

Quanto ao problema da “inclusão” e de as escolas não estarem a fazer tudo o que estaria ao seu alcance para a promover, há que lembrar que a maioria destes alunos migrantes iniciou o seu percurso escolar nos países de origem. Além de barreiras culturais e linguísticas, é necessário ter em conta as debilidades dos sistemas educativos, sobretudo no caso dos PALOP e mesmo do Brasil, que dificultam a integração e comprometem o desempenho académico destes alunos.

A “escola de negócios” do regime nunca nutriu grande interesse pela educação. Nunca trouxe nenhum contributo relevante às chamadas ciências da educação nem se dedica à formação de professores. Mas parece ter acordado agora para a necessidade de ter uma presença influente nas políticas educativas. Vimos recentemente a doutora Peralta a passar a receita para a recuperação de aprendizagens, com tutorias e escolas de Verão. Vem agora o doutor Catela olhar, de forma pouco arguta, para uma suposta discriminação que mais não é do que a reprodução, nas escolas, da desigualdade existente na sociedade.

Ora a verdade é que estes olhares nada trazem de novo. E disfarçam mal os objectivos que ocultam. Um, é demonstrar a incapacidade das escolas de cumprirem o seu papel social, de forma a justificar a entrada de parceiros privados, a instalar à mesa do orçamento educativo. O outro é a afirmação da ideia absurda em que, nos tempos que correm, liberalismos, reformismos e socialismos parecem convergir: a de é possível impor a igualdade de oportunidades, a equidade e a inclusão na escola, enquanto cá fora se continua a promover a desigualdade e a praticar a exclusão.

5 thoughts on “É a desigualdade, estúpido!

  1. Por muita boa vontade e espírito aberto, não há mais paciência para este pessoal.
    Tolerância Zero!
    Não há mais palavras para comentar. O António já se deu ao trabalho.

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  2. Texto certíssimo! Parece que o dito estudo foi pedido pelo EPIS. Portanto está tudo dito, devem estar a tentar arranjar mais um projecto financiado para irem para escolas fingirem que fazem alguma coisa impondo os seus emissários. Se as escolas pudessem fornecer os devidos apoios a estes alunos migrantes com os seus professores seria muito mais fácil resolver os seus problemas! E se fosse feito um diagnóstico adequado das competências que estes alunos trazem quando chegam dos seus países também seria muito mais fácil ajudá-los. Mas, por vezes sobretudo com os PALOP mal se sabe a idade do aluno, não se sabe mais nada do percurso escolar e acaba-se por colocá-los no ano lectivo a que pertencem por idade e daí para a frente só com muita água benta dos seus professores alguns alunos conseguem ir progredindo.

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  3. O que Sophie refere é o que acontece. Ajudar estes alunos é muito complicado, especialmente quando inseridos em turmas do secundário. Muitas das áreas disciplinares nunca foram trabalhadas e depois há o problema da língua- leitura, escrita e também oralidade.

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  4. Para Powers, Fischman e Berliner (2016) a Escola não pode ser o equilibrador das desigualdades produzidas pela sociedade: as desigualdades sociais devem ser enfrentadas pelos políticos, ao invés de se refugiarem em medidas de caráter paliativo ou compensatório.

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  5. Mais uma vez o António Duarte desmonta cabalmente estes discursos e interesses. Infelizmente muitos de nós e uma grande parte da sociedade portuguesa, afogada por estes “argumentos” que têm acesso fácil à comunicação social, deixa-se levar por eles. Mas se tivermos memória e olhos abertos sabemos que este discurso é transversal aos “neoliberais” assumidos como também aos “socialistas” de governo. A Maria de Lurdes Rodrigues apresentou estes argumentos contra a escola pública e sobretudo contra os professores como os culpados de não ajudarem os alunos a aprenderem; o mesmo que o “social-democrata” Justino, no topo do Conselho Nacional de Educação chamava de cultura da reprovação. Hipocrisia pura a fazer de conta de benemerência.

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