O drama das aprendizagens perdidas

Um post lúcido e incisivo da nossa colega Matilde, ontem publicado no blogue do Arlindo, coloca no devido lugar todo o empolamento e insensata dramatização que se anda a ensaiar em torno das “aprendizagens perdidas” devido à pandemia.

Se a suspensão do ensino presencial provocou atrasos nas aprendizagens, a verdade é que, no quadro de uma escolaridade de 12 anos, nada de verdadeiramente importante, em termos educativos, será irrecuperável. Nem as capacidades cognitivas dos alunos nem a experiência e a aptidão profissional dos professores desapareceram. Havendo, em vez de entropia e burocracia, uma definição clara de prioridades e os recursos adequados às necessidades e logo as coisas, a seu tempo, se resolverão.

Irrecuperáveis são, isso sim, as vidas ceifadas pela pandemia. E nem vale a pena pensar que conseguiremos colocar a as escolas a funcionar em pleno enquanto a pandemia não estiver definitivamente controlada e superados, nas empresas e nas famílias, os seus pesados custos económicos e sociais.

Tudo bem explicado no texto que em parte transcrevo, mas que merece ser lido integralmente.

Bem podem vir todas as “Escolas de Verão”, todos os Projectos holísticos, todas as Equipas Multidisciplinares e toda uma panóplia de artefactos irrealistas… Se a taxa de desemprego continuar a aumentar, como infelizmente se preconiza, se as moratórias de empréstimos bancários efectivamente cessarem e se o pequeno comércio e a pequena indústria continuarem a sucumbir, que condições socioeconómicas terão muitas famílias para que as suas crianças e jovens possam continuar a ir à escola? E digo ir à escola, já nem refiro ir à escola para aprender…

E talvez não faça mal nenhum lembrar que as escolas costumam ser dos primeiros lugares onde se percepcionam alguns tipos de carências, nomeadamente as socioeconómicas…

Como previsivelmente acontecerá, atulhar as escolas, os alunos e os profissionais que nelas trabalham com mais projectos e programas irrealistas e artificiais, concebidos à custa de enquadramentos teóricos impossíveis de concretizar em termos práticos e feitos à medida de quem não faz a mínima ideia do que é o dia-a-dia numa escola, não parece ser nem sensato nem consequente… A auto-flagelação, os episódios folclóricos e a demagogia na Educação parecem estar a agigantar-se…

Neste momento, os alunos e o pessoal docente e não docente estão de facto exaustos, independentemente dos resultados escolares obtidos pelos primeiros no final do 2º Período Lectivo.

Regressar à escola em termos presenciais requer serenidade e sensatez da parte de todos os envolvidos. Entrar numa espécie de frenesim de Projectos para recuperar o que, na verdade, não é recuperável pode induzir maior entropia no sistema, sobrecarga de estímulos e consequente sobrecarga emocional e pôr também em causa as aprendizagens futuras…

 Manter o mesmo número de alunos por turma, o mesmo número de disciplinas e o respectivo conteúdo programático anteriores à pandemia e ainda acrescentar projectos que, na prática, costumam apenas significar um acréscimo de tarefas para alunos e professores, não parece viável e pode conduzir a resultados ainda piores…

Recuperação de aprendizagens perdidas durante a pandemia? Pois sim, perderam-se aprendizagens… Como se perderam empregos, como se perderam interacções sociais, como se perderam rotinas anteriores, como se perderam pessoas… Perdeu-se muito, a muitos níveis, e sobre isso não parecem existir dúvidas…

Quando existe uma catástrofe de proporções mundiais, como uma pandemia, é inevitável perderem-se coisas e perderem-se pessoas… Também não há volta a dar a isso…

Nos últimos dias, falou-se muito da necessidade de um “Plano Marshall” na Educação, mas convém não esquecer que, no original, esse programa teve como principal desígnio a recuperação económica dos países europeus intervenientes na 2ª Guerra Mundial, tendo como “mecenas” ou patrocinador os Estados Unidos da América…

Por analogia com o que se passou nessa época, será fundamental e urgente recuperar a Economia do país, pois só dessa forma se poderá pensar em recuperar as eventuais “aprendizagens perdidas”, apesar de poder não existir, no caso presente, qualquer “mecenas”…

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