Um crime sem castigo

Carlos entrava em casa quando ouviu o estrondo. O chão tremeu. Um clarão enorme iluminava o breu. “Mataram o padre Max!”, gritava a irmã.

Lurdes jazia no meio da estrada, ao quilómetro 71.

Ainda disse “que desgraça!” ou “socorre-me!”, algo assim.

Max estava caído junto à valeta, à esquerda.

“Ó pá, que desgraça!”, disse, a custo.

O Simca, partido em dois, era já sucata. No chão, havia panfletos ensopados a anunciar um baile na Quinta do Rodo, em Godim, na Régua.

Maria de Lurdes foi transportada ao hospital num jeep que passava. Ele seguiu no carro do cunhado de Carlos. No caminho, disse que lhe faltava o ar.  

Ela chegou já sem vida ao hospital. Vestia três camisolas leves de várias cores.

Max entrou com grande dificuldade em falar.

Perguntaram-lhe o que se passara.

“Colocaram-me uma bomba no carro e agora está a arder, mas não faz mal. É esta a democracia portuguesa”.

Depois entrou em coma.

Faleceu às seis horas e vinte minutos do dia 3 de abril de 1976.

Tinha 32 anos e dizia que não chegaria à idade de Cristo.

Foi há 45 anos, mais precisamente a 2 de Abril de 1976 que o terrorismo de extrema-direita cometeu um dos seus crimes mais hediondos e repugnantes: o assassinato à bomba do Padre Max e de Maria de Lurdes, a jovem estudante que o acompanhava. Um crime sem castigo, pois apesar das ligações evidentes ao MDLP, organização terrorista muito activa no norte do país naquele período, uma teia de cumplicidades influentes na Polícia Judiciária, no aparelho judicial, na própria hierarquia religiosa, se conjugou para dificultar a investigação e impedir a recolha de elementos de prova.

Num excelente trabalho jornalístico, Miguel Carvalho evoca a vida e a acção social, cultural e política do padre Max, no estertor do Estado Novo e durante o período pós-revolucionário, quando Maximino de Sousa abraçou em pleno os ideias de Abril e assumiu o seu compromisso com os pobres e as classes trabalhadoras. Foi uma opção que valeu ao sacerdote revolucionário a hostilidade de muitos, no ambiente reaccionário e conservador do interior transmontano.

A peça, cuja leitura recomendo vivamente, recorda as circunstâncias do assassinato do Padre Max e tenta desvendar o que, passados 45 anos, é ainda possível deslindar acerca dos seus responsáveis morais e materiais, que nunca foram levados a julgamento.

One thought on “Um crime sem castigo

  1. Os extremismos, para além de satisfazer objectivos obscuros, não interessam a ninguém, sejam eles de esquerda ou de direita. Continuo com a opinião de que a reacção das FP25 (extrema-esquerda) fizeram bem pior, e os seus protagonistas, sobejamente identificados e conhecidos, também nunca foram condenados.

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