Tutorias e escolas de Verão

Um grupo de investigadores propôs ao Governo uma estratégia de recuperação de aprendizagens para os alunos do 1º ao 9º ano, incluindo a introdução de programas de tutoria às disciplinas de Língua Portuguesa e Matemática, assim como a criação de escolas de verão.

“Desde o último confinamento em Portugal, ainda não foi tornado público nenhum plano de recuperação de aprendizagens. Este documento propõe dois tipos de medidas imediatas, efetivas e temporárias, já testadas em outros sistemas de ensino e adaptadas ao sistema Português”, pode ler-se no texto “Aprendizagens perdidas devido à pandemia: Uma proposta de recuperação”, da autoria de Bruno P. Carvalho, Pedro Freitas, Miguel Herdade, Susana Peralta, e Ana Balcão Reis, e que foi entregue ao Governo esta quinta-feira.

No que toca aos programas de tutoria, o plano dos académicos é o seguinte: duas aulas semanais e integradas no horário escolar de Português e Matemática, com duração entre 30 minutos e uma hora, para “pequenos grupos” de três a cinco alunos do ensino básico, durante pelo menos 12 semanas. “A evidência acerca da eficácia deste tipo de programas tem mostrado ganhos, medidos em tempos de aprendizagem, entre 3 e 15 meses”, apontam os investigadores.

No que toca às escolas de verão, a ideia é a de abranger os alunos inscritos no 1º e 2º ciclo do ensino público: teriam uma duração de quatro semanas, “combinando atividades lúdicas e de recuperação de aprendizagens”, num total de 20 horas de tutoria – ou cinco horas por semana. “No fundo, é um programa de tutoria mais diluído”, explica Peralta, adiantando que o plano teve em conta a realidade remuneratória dos professores em Portugal.

Quando um grupo de economistas, professores de uma escola de negócios, largam a sua suposta área de especialização e se dedicam a elaborar e propor planos de “recuperação de aprendizagens” como se fossem especialistas em educação, o que pensar? Obviamente, ou não conhecêssemos as peças de outros carnavais, querem transformar a educação num negócio.

Um negócio privado, bem entendido, mas pago pelo Estado, à boa maneira neoliberal. E se os prejuízos causados pela pandemia puderem ser aproveitados para promover este objectivo não assumido, mas mal dissimulado, nem se pensa duas vezes.

Chamemos-lhe tutorias, aulas suplementares ou “escola de Verão”, o esquema proposto pressupõe sempre um apreciável aumento de carga lectiva, estendendo-se eventualmente pelos meses de Verão. E castigando sobretudo os alunos mais carenciados ou com maiores dificuldades – aqueles que, de acordo com as “provas” recolhidas pelos economistas em estudos de outros países, mais perderam com os confinamentos.

Contudo, para dar mais aulas são precisos mais professores. Como os que estão no activo já têm os seus horários preenchidos e não deixarão de gozar férias na altura devida, o plano prevê a contratação de novos docentes, que tanto podem ser professores desempregados como licenciados sem habilitação para a docência. E é por aqui que esta iniciativa se junta a outras que andam por aí a fervilhar e que têm um objectivo comum: embaratecer e desqualificar a profissão docente, abrindo o acesso à profissão a candidatos sem qualificações pedagógicas.

O modelo de recrutamento que aceita como professores profissionais com formações diversificadas, podendo não ter sequer formação ou prática pedagógica, é comum nos países anglo-saxónicos que foram referência para os “estudos” destes autores. Mas não é adoptado nos países ocidentais que constituem referência em bons resultados educativos: nestes, sabe-se bem da importância da formação inicial de professores para promover e manter, de forma consistente, a qualidade do sistema educativo.

Em Portugal, voltar ao tempo das habilitações “próprias”, “suficientes” e “mínimas” significaria regredir pelo menos trinta anos no sistema de recrutamento e formação inicial de professores, quando a falta de profissionalização constituía pretexto para barrar a entrada na carreira a dezenas de milhares de docentes, enquanto para outros dar umas aulas era um biscate para complementar rendimentos ou enquanto não se encontrava coisa melhor. Na sonsa modernidade das nossas schoolofbusiness há quem defenda, por convicção ou interesse, este regresso ao passado.

2 thoughts on “Tutorias e escolas de Verão

  1. Dos livrinhos de economia para totós, temos agora os livrinhos de escolas de verão também para totós.
    Ai, que esta Peralta e outros não largam o osso.
    Afinal, o que é que esta gente quer?

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