O regresso à luta de rua

Os tempos de pandemia não estão propícios à luta de rua. Que o diga o STOP, que ontem não conseguiu mobilizar mais do que dez pessoas para um protesto em frente ao Parlamento, inteiramente justo e oportuno, contra as arbitrariedades impostas pelo ME nos concursos de professores. E nem o facto de Portugal ocupar presentemente a presidência rotativa da União Europeia, o que noutros tempos dava visibilidade internacional à contestação social e política interna, parece ajudar muito: agora a maioria das reuniões e eventos ocorrem por videoconferência, sendo os encontros presenciais muito mais a excepção do que a regra.

Do lado dos professores, e depois das mega-manifestações de 2008, a mobilização para este tipo de acções também tem vindo a diminuir, tendo-se instalado um ciclo vicioso difícil de reverter: as manifestações são ignoradas porque têm pouca gente e há cada vez menos manifestantes porque se sente que estes protestos não produzem resultados. No entanto, a história dos grandes movimentos sociais e políticos está repleta de exemplos de como as grandes marchas, concentrações e manifestações podem ser mobilizadoras do descontentamento latente e um poderoso catalisador das lutas vitoriosas.

Tendo por certo esta ideia em mente, a Fenprof não se resigna, e quer aproveitar a primavera para relançar a presença dos professores na rua, em defesa dos seus direitos e da sua carreira. Trata-se, acima de tudo, de denunciar e combater o bloqueio negocial que vem sendo imposto aos professores desde a tomada de posse do actual governo, que se recusa a receber os sindicatos e a ouvir as reivindicações da classe que representam. A prioridade parece ser, no actual impasse, obrigar o Governo a reconhecer os problemas existentes e, se não a resolvê-los a contento dos professores, pelo menos a sentar-se à mesa das negociações.

A Federação Nacional de Professores (Fenprof) vai promover uma “ação nacional de luta” no dia 17 de abril, em Lisboa, para exigir ao Governo “diálogo, negociação e soluções” para os problemas dos professores, anunciou hoje o secretário-geral.

Mário Nogueira disse em conferência de imprensa, em Coimbra, que a Fenprof vai também reclamar “respeito pelos professores e educadores”.

“É intenção da Fenprof não só exigir do Governo diálogo (…), como denunciar no espaço geopolítico temporariamente presidido por Portugal os problemas que se vivem na educação, que afetam os professores”, adiantou Mário Nogueira, numa alusão à presidência portuguesa do Conselho da União Europeia (UE).

A concentração nacional está marcada para 17 de abril às 15:00, no espaço adjacente ao Centro Cultural de Belém (CCB), em Lisboa, onde, desde janeiro, têm sido realizados “alguns dos eventos mais importantes” da presidência rotativa da UE.

Os problemas dos docentes, segundo Mário Nogueira, “resultam do facto de o designado diálogo social no país ser pouco mais que produto de exportação não consumido internamente”.

5 thoughts on “O regresso à luta de rua

  1. “Os problemas dos professores”. Que professores e que problemas ?

    Há os verdadeiros professores (muitíssimos) que arcam com verdadeiros problemas ; os ” outros”, se pensassem um bocadinho, concluiriam que não têm problema algum – têm, sim, imerecidos privilégios.

    Gostar

  2. Enquanto os sindicatos continuarem a agir como no início do séc. XX, não vão a nenhum lado. As manifs , as bandeirinhas e faixas de pano ao vento já era.

    Reinventem-se…
    Tem muito mais força uma presença inteligente em meios de comunicação seja TV seja Internet do que estas formas arcaicas de “luta”.
    Tem muito mais força a contratação por parte dos sindicatos de escritório reputados de advogados do que negociações de fachada com o governo e coreografias cénicas de rua.

    Acordem pá…

    Gostar

    • Um ponto de vista pertinente, com o qual concordo. Sem perder a sua identidade e razão de ser, o sindicalismo tem de se adaptar aos novos tempos, usar mais e melhor as novas tecnologias de informação e comunicação e investir na chamada frente jurídica.

      No entanto, a luta de rua não se pode resumir a mera coreografia, nem me parece que seja hoje menos eficaz. Pelo contrário, ela continua a incomodar os poderes estabelecidos e a manter um certo carácter subversivo, desde logo porque, atingindo uma certa dimensão, não pode ser silenciada ou ignorada.

      O problema maior das manifestações é haver quem as faça – e cada vez menos professores se vão mostrando disponíveis – e a capacidade de persistir por longo tempo em lutas desgastantes e sem resultados imediatos…

      Gostar

  3. De acordo.
    A luta de rua não deve ser esquecida, mas os objectivos devem ser claros e capazes de mobilizar os professores mais velhos e os mais novos, sendo que os mais velhos estão
    cansados e os mais novos são dificilmente mobilizáveis.
    Quem desiste porque não se conseguem grandes resultados é um argumento ligeiramente naive. Basta olhar para outras classes profissionais.
    Mas apostar nas novas tecnologias é fundamental.

    Gostar

Comentar

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.