“Ouvir a voz dos alunos” – outra vez arroz?

A notícia é do início da semana, mas só hoje dei por ela. Claramente desorientado – os manuais eduqueses não trazem receitas para tempos de pandemia e o tema também não terá sido abordado nos mestrados de Boston dos anos 80, o ambiente mental em que os seus conselheiros parecem ter cristalizado – o SE João Costa esboça os planos da pólvora para o desconfinamento escolar e a necessária “recuperação das aprendizagens”.

Mais confuso e delirante do que o habitual num seguidor da tradição de picaretas falantes que o PS gosta de recrutar para os seus governos, João Costa tropeça nas ideias e nas palavras e vai dizendo um disparate atrás do outro. A primeira reacção, perante a ideia de ouvir vozes dos alunos, que já serviu para abrir caminho ao desastre da flexibilidade curricular, é inevitável: outra vez arroz?

Recomenda assim, para começar, umas sessões de psicoterapia grupal: “Ouvir a voz dos alunos, ouvi-los muito e pôr toda a escola a ouvi-los.” Serão então precisos mais psicólogos nas escolas? Talvez não, que fica caro. O SE recomenda “intervenção comunitária”, coisa mais simples e que se faz com a prata da casa. Ou nem sequer se faz, mas diz-se – e escreve-se! – que se fez.

Depois, sugere desenvolver programas em contexto escolar centrados no Plano Nacional das Artes e no Plano Nacional do Cinema, reconhecendo aparentemente a importância que uma área que foi das maiores vítimas da flexibilidade curricular dos seus governos.

Também admite que “os alunos em situação mais vulnerável ficaram ainda mais vulneráveis”, mas depois sai-se com esta enormidade: “despejar mais aulas em cima dos alunos é contraproducente”. Quer, aparentemente, recuperar aprendizagens – “Temos de saber o que foi perdido e rever o que não pode mesmo ficar para trás.” – mas pretende fazê-lo com menos aulas e muita psicoterapia, arte e sessões de cinema…

No fim, confirma-se o que é evidente desde o início: o ministro-de-facto da Educação não tem respostas concretas para os problemas reais vividos nas escolas. Quer condicionar o trabalho que terá de ser feito com os alunos mas na verdade não sabe o que fazer. Segue a linha a que já nos habituou, a de não se responsabilizar por coisa alguma, sacudindo a água do capote e para cima da “autonomia das escolas”, que como se sabe tem as costas largas. Se alguém tiver de escorregar na casca de banana, o ministro Tiago que se chegue à frente, que o seu secretário prefere resguardar-se nos bastidores. Fica-nos uma certeza: do que nisto tudo correr mal, e no que não se puder culpar o vírus, a culpa sobrará, uma vez mais, para as escolas e os professores.

2 thoughts on ““Ouvir a voz dos alunos” – outra vez arroz?

  1. Excelentemente bem visto. O Joãozinho é um grande artista português e usa pasta medicinal “dema-gogo” para mostrar as suas (des)habilidades…
    É o país-que-temos….

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  2. O ouvir a voz dos alunos é só quando interessa. No 1º confinamento do lectivo passado, obrigaram os alunos do 11º ano a frequentarem,no último mês do 3º período, aulas presenciais de disciplinas a que não queriam fazer o exame nacional, como Filosofia e Inglês. As escolas e os EEs bem que chamaram a atenção para este facto, mas a resposta veio sempre inalterada- assistem na mesma a essas aulas e pronto.

    Depois, não entendo isto – há que recuperar aprendizagens essenciais, o que tem a sua lógica (e já nem vou questionar as “aprendizagens essenciais”), mas ao mesmo tempo temos esta dos programas em contexto escolar centrados no Plano Nacional das Artes e no Plano Nacional do Cinema. É bonito, mas será o que é necessário fazer-se nestes tempos?

    É um “outra vez arroz”, sim senhora. E não é doce.

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