E acabar de vez com esta ADD?

É quando os professores tomam conhecimento da sua avaliação de desempenho que surge a maior revolta e se levantam as maiores críticas contra um sistema de avaliação injusto, no qual a generalidade dos professores não se revê.

Concebido na lógica perversa do dividir para reinar, o actual modelo de ADD não promove o trabalho colaborativo nem a partilha de boas práticas pedagógicas: quando ajudar um colega pode traduzir-se em prejuízo do próprio, todos pensarão duas vezes antes de o fazer, sobretudo se ambos almejam as classificações ditas de mérito, que em regra beneficiam apenas um quarto dos professores de cada universo avaliativo.

Na prática, é em torno dos muito bons e dos excelentes que surgem os maiores problemas com a avaliação, uma vez que só com uma destas classificações é possível a passagem directa ao 5.º e ao 7.º escalão. Quem não as consegue está condenado a atrasar um a dois anos a sua progressão na carreira, por ter de ficar à espera de vaga. Não é por acaso que, embora todo o processo de ADD seja permeável a prepotências e injustiças, a quase totalidade das reclamações e recursos provém de professores que ficam encalhados naquelas passagens de escalão.

Quanto à operacionalização da ADD, é verdade que nela reinam, mais do que deveriam, a opacidade e o secretismo: os avaliados não têm acesso às classificações dos colegas nem forma de aferir sobre a justiça da sua própria avaliação. Uma demonstração, afinal, de que nem os criadores deste modelo avaliativo acreditam na sua bondade e equidade.

A perversidade desta avaliação dos professores exprime-se também na animosidade que tende a criar contra os responsáveis pela avaliação. É verdade que, nalgumas escolas, o processo avaliativo estará contaminado pelos jogos e esquemas de poder estabelecidos, com os directores a beneficiar os seus favoritos. Mas mesmo nas escolas onde os critérios e parâmetros de avaliação são claros e objectivos e se procura avaliar com rigor e sentido de justiça, constata-se a impossibilidade de satisfazer toda a gente. Pela simples razão de que o que todos querem não não chega para todos. E o sistema foi intencionalmente concebido para funcionar desta forma.

Neste ponto, importa sair da lógica perversa a que o modelo de ADD nos conduz e perceber a necessidade de lutar pela sua revogação. Uma necessidade que alguns descobriram, de súbito, quando se viram barrados na passagem de escalão, mas que existe desde o momento em que esta ADD foi imposta como moeda de troca pela revogação do anterior, e ainda mais contestado, modelo dos professores titulares.

É claro que não está nos planos ministeriais mexer num sistema de avaliação que cria barreiras e afunilamentos na carreira, atrasando as progressões, ao mesmo tempo que desune e divide os professores, criando clivagens entre os candidatos à progressão e entre estes e as lideranças de topo e intermédias no interior das escolas e agrupamentos. Da parte do Governo, só farão alguma coisa se a isso forem forçados, o que implica, do lado dos professores, minar o actual modelo de avaliação, tirando-lhe a escassa credibilidade que ainda tem e desvirtuando-o em relação aos fins para os quais o ME o concebeu. Se esta ADD é uma farsa que somos forçados a representar, porque não fazê-lo o mais possível a nosso favor, em vez de tentarmos executar zelosamente, avaliadores e avaliados, os papéis que o ME nos destinou?

Há uma luta a travar em várias frentes contra esta ADD. Perceber essa necessidade, definir estratégias e criar instrumentos para o fazer é o primeiro passo para o qual os professores e os seus sindicatos se devem mobilizar.

Voltarei ao assunto.

10 thoughts on “E acabar de vez com esta ADD?

  1. Caro A.Duarte

    Enquanto vigorar este ECD – que escandalosamente trata por igual o que é desigual – não há volta a dar. Que critérios podem ser usados para atribuir uma nota ou menção dentro de um universo tão heterogéneo em qualificações e conteúdos funcionais?

    Sem desprimor para ninguém, deixo aqui duas perguntas que gostaria de ver respondidas :
    uma excelente senhora, tece uns excelentes tapetes de Arraiolos e teve Excelente ; um qualificado e excelente professor, ensina excelentemente uma complexa matéria prè- universitária ( com o inerente trabalho e responsabilidade ) e “também” teve Excelente.

    A minha dúvida é : por via das cotas, para quem vai o Excelente? (moeda ao ar?)

    E se a dedicada tecedeira tivesse Excelente no seu míster e o Professor atrás referido Bom ? ” Como era?”.

    “Cada macaco no seu galho, équiera” – digo eu.

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    • Cara Maria,

      Acho que não é por aí.

      A tecedeira de Arraiolos até poderá chegar ao excelente, mas não pela sua destreza enquanto artesã. Poderá, por exemplo, no âmbito das disciplinas que lecciona ou projectos da escola em que esteja envolvida, realizar actividades relevantes com os alunos, envolver a comunidade educativa, prevenir o abandono, promover a inclusão… Tudo isto tende a ser mais valorizado, nos dias de hoje, do que a mera preparação para os exames. Até porque há colegas nossos que, além de fazerem bem esta tarefa, estão igualmente atentos a outras dimensões tão ou mais relevantes da profissão.

      Mas a questão também se pode colocar com professores de formação idêntica, do mesmo grupo disciplinar. Um dedica-se, com bons resultados, a leccionar turmas de alunos aplicados do ensino secundário. Outro pega em turmas difíceis, daquelas que muitos professores “pré-universitários” rejeitam sempre que podem, e consegue fazer um trabalho igualmente meritório com alunos difíceis, indisciplinados, em risco de abandono, com infâncias ou adolescências complicadas. Qual dos dois tem maior mérito? A meu ver, ambos, e a escola pública de qualidade e inclusiva precisa dos dois e de muitos mais como eles.

      O problema, na minha maneira de ver, é termos um sistema de ADD que impede que todos sejam devidamente valorizados.

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    • não é moeda ao ar mas os critérios de desempate emanados da legislação são totalmente subjetivos e isso é permeável à emotividade do avaliador(a)

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  2. Por ser Sábado :
    e se o Ministério da Saúde instituísse também uma “carreira única” ? Alguém ficaria surpreendido se o enfermeiro “roubasse” o Excelente ao médico- cirurgião ? E que tal, no Ministério da Justiça, o escrivão “disputar” com o Juiz um apetecível Excelente?

    Afinal, todos trabalham p`ró mesmo, porra!

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    • Diferentes conteúdos funcionais.
      Os assistentes operacionais, os assistente técnicos (pessoal administrativo), os terapeutas e os psicólogos escolares também não estão integrados na carreira docente.

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  3. Percebo o que a Maria quer dizer. O que, em regra, é valorizado pelas escolas em termos de ADD não passa de folclore. O trabalho do professor é ensinar, e ensinar bem. É isso que se deve esperar de um professor, e não que seja um entertainer ou animador sociocultural. Aquilo que passa por ser um trabalho de qualidade junto de “turmas difíceis” é, em regra, entretenimento e fazer-de-conta. A menos que os alunos desenvolvam competências académicas, o valor das actividades, por muito divertidas que sejam (e tanto haveria a dizer sobre a natureza ideológica desse divertimento), é nulo. A questão que se coloca aqui, e em relação a quase tudo relativo à educação na escola pública, é esta: a escola serve para quê? para ensinar e formar ou para entreter e passar o tempo? Já agora, as tais turmas difíceis são difíceis porquê? Não terá que ver com a envolvente socioeconómica e com a corrupção do modelo organizacional das escolas? Não terá que ver com a desvalorização da autoridade — científica, pedagógica, disciplinar — dos professores? O que passa por uma atitude meritória — querer trabalhar com tais turmas (deixo de parte a análise dos motivos para tal) — encobre algo muito triste: o facto de os professores serem profissionais que não têm no seu local de trabalho as condições de segurança e respeito devidas.

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    • Sem dúvida que um dos muitos defeitos da actual ADD é sobrevalorizar o folclore educativo e a “inovação pedagógica” em detrimento do trabalho esforçado e competente, mas pouco visível, em sala de aula.

      E claro que o professor não tem de ser um animador, um entertainer, muito menos um palhaço perante turmas de alunos que não querem aprender. Haverá quem se deixe ir por esse caminho, mas também temos colegas que, sem ceder ao facilitismo ou ao fatalismo, conseguem motivar pelo menos alguns destes alunos difíceis, quebrando o ciclo vicioso do insucesso, da indisciplina e do abandono. Não me sinto especialmente vocacionado para esse trabalho, mas sou o primeiro a reconhecer o seu valor.

      Que quem trabalha com alunos especialmente difíceis precisa de ser, além de valorizado, especialmente apoiado, com os tais mediadores, animadores, terapeutas, psicólogos que faltam em muitas escolas? Obviamente que sim. E há ainda a ínfima minoria dos delinquentes, sociopatas e psicopatas que não têm condições para estar numa escola sem pôr em causa a segurança dos colegas e do pessoal docente e não docente: são um problema da sociedade e não da escola, onde nem sequer deveriam estar.

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  4. No meu primeiro comentário, acima, por muito bizarra que possa parecer a comparação que fiz, a “coisa” não é tão ficcionada assim – olhem que não, olhem que não.
    Sucede que até nem estava a referir-me às turmas “difíceis” . O quadro que esbocei reporta-se às turmas ou alunos “normais” que calharam em sorte a um naipe de professores. E aqui é que “bate o gato” :Independentemente do caracter mais lúdico e relaxado ou mais académico e “difícil” das disciplinas curriculares , certo é que .. a paga é a mesma – “vocês sabem do que estou a falar” , como diria o outro.

    (peço desculpa por monopolizar a conversa, mas a “culpa” é da agradável companhia )

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  5. ena…é raro encontrar uniformidade opinativa na qual me incluo… 😉
    A avaliação de desempenho docente (ADD) não tem como objetivo primordial a melhoria formativa do individuo na perspetiva nobre e altruista, cujo resultado seria uma qualidade melhor da atividade para a instituição e para o estudante como futuro adulto. A ADD tem o objetivo repressivo, intimidatório, cujo resultado é poupar no salário e na pensão de reforma, com o paradoxo de piorar a prestação profissional e consequentemente, prejudicar o futuro do estudante.
    A ADD privilegia o mediático, que catapulte a escola para a exposição na comunidade e despreza o trabalho dentro da sala de aula. Este só é evidenciado quando a ADD impõe para efeitos de progressão mas tem um peso relativo que pode ser anulado se não existir o tal folclore mediático.
    Sim “sei do que está a falar” mas convém não revelar porque é politicamente incorreto e dá uma celeuma tremenda, mas é algo absurdo considerar igual o que evidentemente é muito diferente, e escalar tudo pela ‘mesma bitola’, onde a ‘paga é a mesma’…

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