Bazuca educativa: as recomendações do CNE

O Conselho Nacional de Educação (CNE) considera que é necessário adaptar os currículos e as formas de ensino “aos novos paradigmas da sociedade do conhecimento e da informação” e que a Reforma Digital deve apontar para a produção de novos conteúdos e não apenas a sua digitalização. Todas estas mudanças devem ser acompanhadas da formação e acompanhamento técnico e pedagógico dos professores.

No parecer que foi pedido pelo Governo, no âmbito da discussão pública do Plano de Recuperação e Resiliência, o CNE diz que o PRR dedica uma atenção especial à transição digital na educação, mas há que ter em conta as especificidades de cada região do país, do meio socio económico em que as escolas se inserem porque é sabido que há ainda muita falta de meios tecnológicos.

O conselho Nacional de Educação quer ainda que em todas as escolas do ensino básico e secundário se promova o ensino em áreas STEAM (Ciências, Tecnologia, Engenharia, Artes e Matemática), apetrechando os estabelecimentos de ensino com os recursos base necessários.

O conselho Nacional de Educação considera ainda essencial valorizar nos currículos a dimensão criativa, artística, humanista e desportiva.

Ouvido acerca da forma como poderão ser investidas, no sector educativo, algumas verbas da bazuca europeia que venham a estar disponíveis, o CNE não conseguiu sair do discurso redondo e politicamente correcto que tem enquadrado as políticas educativas das últimas décadas. E que vão permitindo a cada Governo, prosseguir a sua política, tantas vezes em clara contradição com os elevados princípios invocados nestes documentos orientadores.

E, no entanto, não é preciso uma leitura muito cuidadosa ou demorada para perceber a fragilidade em que assentam as recomendações do CNE. Começando pela conversa da treta em torno de “paradigmas” não identificados, chega-se à ideia de que são precisos novos conteúdos e não apenas a digitalização dos existentes. Mas conjugando isto com a noção generalizada de que os currículos actuais já são demasiado extensos, há uma questão que não pode deixar de se colocar: que conteúdos velhos é que se tiram para colocar os novos? Mais: o novo, apenas porque é novidade, é mais importante do que o antigo? Num mundo em mudança acelerada – embora por vezes com surpreendentes retrocessos, e aí está a pandemia a lembrar-nos disso todos os dias – é mais importante o adquirir o conhecimento utilitário e instrumental dos dias de hoje, que estará ultrapassado daqui a meia dúzia de anos, ou os conhecimentos e competências de base, estruturantes, que, esses sim, nos permitirão continuar a aprender pela vida fora?

No resto, segue-se uma lógica semelhante: seguindo a agenda educativa das multinacionais da educação, propõe-se a promoção das áreas científicas. Mas, ao mesmo tempo, o reforço das artes, humanidades e desporto. Em que ficamos, então? Aumentamos ainda mais os horários lectivos que já tendem a ser, sobretudo no ensino básico, demasiado extensos? O parecer do CNE alimenta o equívoco de que é possível dar tudo a todos, quando na verdade em Educação, como em quase tudo na vida, existem custos de oportunidade: se opto por fazer uma coisa, deixo de fazer outra. O grande risco dos experimentalismos curriculares permanentes, insensatos, mal concebidos e pior avaliados, é o da degradação da qualidade do serviço educativo, substituindo o conhecimento sólido e estruturado das disciplinas clássicas por vacuidades e modernidades sem substância.

O CNE pronunciou-se ainda sobre a previsível falta de professores a médio prazo, mas também aqui não foi capaz de ir além de formulações genéricas acerca de reformas no sistema de formação inicial e de, não se percebe bem por que artes mágicas, reforçar a atractividade da profissão junto dos jovens. Também aqui falham o alvo, pois não é por criar mais cursos de formação inicial de docentes, que já hoje estão quase às moscas, que se conseguem mais candidatos à profissão.

O desafio joga-se, como não é difícil de compreender, na melhoria substancial das condições de acesso à profissão, acabando com a precariedade extrema a que se condenam os jovens professores e tornando a profissão mais atractiva. A um outro nível, recrutar e manter um corpo docente motivado e qualificado passa igualmente por valorizar e dignificar a carreira e a profissão. Em poucas palavras, respeitar os professores: uma atitude que deveria partir de cima mas que tem estado sistematicamente ausente do discurso e da acção dos responsáveis educativos. E que, infelizmente, também não tenho descortinado na converseta da presidente do CNE.

3 thoughts on “Bazuca educativa: as recomendações do CNE

  1. A bazuca deveria começar por promover a substituição dos mais velhos, dos que deram o melhor de si enquanto tinham idade para isso.
    A exigência e a pressão que se coloca actualmente no trabalho docente é incompatível com idades acima dos sessenta e essa deveria ser uma meta etária que deveria ser tida em consideração também como forma de reforçar a atractividade da profissão junto dos jovens, pois poucos são os que a partir daí se encontram ainda com o vigor para dar resposta ao que se exige.
    Ainda há alguns anos atrás a reforma na docência atingia-se aos 55 anos de idade, depois passou para os 60 e actualmente está nos 66,5 com actualizações pontuais conducentes a uma idade ainda mais avançada, tendo unicamente como referência o aumento da esperança média de vida.
    E deverá ser só esse o referencial a ter-se em consideração? E sendo esse o dominante não seria preferível estudar então um aumento dos descontos para se sair mais cedo?
    Diga-se que todas estas alterações nunca tiveram em atenção os que já estavam no sistema, foram aplicadas a todos, sem qualquer consideração pelas regras até então em vigor, fazendo tábua rasa de expectativas até aí criadas tendo em vista unicamente questões económicas, como se a partir daí todos conseguíssemos chegar à meta final, com saúde e no topo de uma carreira que entretanto o governo esvaziou permitindo que só uma ínfima minoria aí chegue.
    Afinal a pré-reforma de que este governo andou a acenar não passa de mais uma promessa por cumprir, pois nunca mais estabelece os critérios que a possam vir a regulamentar na prática. Um ano atrás de outro e nada.
    Urge colocar na agenda a premência da pré-reforma… com ou sem bazuca.

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  2. Com uma quase octogenária à frente do CNE é quase como se nos dissessem, então esta senhora está ali cheia de pedalada e vocês, com menos 15 ou 20 anos, não aguentam?

    Claro que, a partir de uma certa idade, é sempre mais fácil e muito mais motivador mandar trabalhar os outros do que ser o próprio fazer…

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