Rui Ferreira – Sobre o projecto MAIA

Permitam-me o contraditório face ao último grito pedagógico que dizem vir revolucionar a Educação em Portugal, o projeto de adesão voluntária denominado MAIA, concretamente sobre uma pequena parte retirada do documento com o nome Folha # Aprender Melhor com Políticas de Classificação Mais Transparentes e Consistentes, da autoria do Senhor Professor Catedrático do ISCTE-IUL, Domingos Fernandes.

(…) Estamos, como acima já se mencionou, perante a orientação que, numa variedade de circunstâncias e documentos escolares, tem sido designada como 80% cognitivo e 20% não cognitivo (ou com outras percentagens) e que, por qualquer razão, se enraizou no nosso sistema escolar como sendo critérios de avaliação e com base nos quais os alunos têm sido classificados. Não estamos, obviamente, perante critérios de avaliação mas antes perante um algoritmo para determinar classificações. E este equívoco parece decorrer do facto de se considerar que avaliação e classificação são conceitos indistintos e também do facto de o conceito de critério de avaliação poder não estar devidamente clarificado.” (p. 10)

Partindo do que aqui se convencionou designar por 80% Cognitivo e 20% Não Cognitivo, várias são as questões que se podem formular. Destacam-se a seguir algumas que deverão merecer a atenção dos órgãos próprios dos Agrupamentos/Escolas Não Agrupadas (AE/ENA) e, em geral, dos seus docentes”. (p. 11)

Espanta-me, sendo professor de uma instituição de ensino superior prestigiada, o ISCTE, cuja oferta educativa apresenta 17 licenciaturas, 58 mestrados e 18 doutoramentos, nenhum deles associado diretamente aos cursos via ensino, pasme-se, se sinta perfeitamente conhecedor da instituição escola e com autoridade profissional para sugerir orientações a professores com uma vasta experiência, alguns deles de igual grau académico e com atividade pedagógica na formação inicial de professores.

Em primeiro lugar o autor não faz a mais pequena ideia do trabalho que as escolas desenvolvem no âmbito da avaliação, tantas são as incongruências, omissões, ignorâncias e meias-verdades veiculadas em mais de uma dezena de documentos por ele produzidos ou coordenados. Não sabe o autor, ou pretende omitir, que o algoritmo 80% Cognitivo e 20% Não Cognitivo que atribui à escola (nunca, em tantos anos de serviço na escola, observei tal vocabulário) corresponde a dois núcleos categoriais que se subdividem noutras parcelas acompanhadas de descritores com ponderações atribuídas. Proponho ao autor a leitura do estipulado no artigo 18.º (critérios de avaliação) da Portaria n.º 223-A/2018, de 3 de agosto, para o ensino básico, e, para o ensino secundário, no seu artigo 20.º, com semelhante redação, na Portaria n.º 226-A/2018, de 7 de agosto.

Em segundo lugar, com as devidas diferenças relativamente à natureza dos percursos formativos e respetivas populações alvo, o autor sempre poderá intervir começando pela sua própria instituição. Não deixa de ser paradigmático vê-lo a caracterizar como um equívoco o algoritmo 80% Cognitivo e 20% Não Cognitivo encontrado, diz, numa escola, quando na sua instituição se verifica, a exemplo, 80% Frequência e 20% Participação (outras com diferenças mínimas), em todas as fichas de unidades curriculares (centenas), sem exceção (ver aqui https://www.iscte-iul.pt/).

Equivocado parece estar o autor por dirimir sobre uma matéria que desconhece. Como docente universitário, ainda mais um Professor Catedrático, parece não ter entendido um dos ditames maiores da Academia, aquele que refere o dever de guardar reserva sobre o que ignora e sobre o qual não arrecada uma efetiva experiência profissional.

Rui Manuel Fernandes Ferreira

8 thoughts on “Rui Ferreira – Sobre o projecto MAIA

  1. Do ISCTE? Então é colega da nossa ‘querida’, de má memória, Milu.
    Desde que iniciei a docência, e já lá vão uns bons anos, as reformas no ensino foram, e são, uma constante. Cada vez que muda o ministro, lá surgem novas teorias, que nos obrigam andar aos papéis. Relatórios, reuniões, fichas, reuniões, grelhas, reuniões, novas disciplinas, reuniões, reuniões, reuniões, etc., etc.
    Pelo que pude perceber, temos um putativo ‘menistro’ da educação!
    Um futuro risonho, portanto!

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    • Sim, é Maria de Lurdes Rodrigues. Hoje é ela que tem na sua mão a cruz (peça de madeira que segura os nove fios de “marionette”) com que produz movimento em Domingos Fernandes.
      No texto da mensagem da Reitora lê-se “A minha proposta, enquanto Reitora, é que, no desenvolvimento de novas iniciativas nos domínios do ensino e da investigação, dêmos prioridade às escolhas do diálogo interdisciplinar (…)”
      Habituada que está à imposição, ora formal por força da lei ora informal através deste tipo de projetos, pergunto eu, onde está o diálogo que propala?
      O dinheiro recebido da FCT e do POCH é capaz de projetar o barco a uma velocidade quase imediata. Se lhe somarmos o outro terço arrecadado pelo CIIE e respetivo observatório (OBVIE) da Ariana Cosme da UP então temos uma nova época dos (des)cobrimentos.
      O grande irmão de Orwell tudo vê. Estejamos atentos.

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  2. Foi por causa disto que tem havido uma voragem na revisão de conceitos, no colocar tudo em causa, numa terraplanagem maluca que, depois de cozinhada, vai dar mais ou menos tudo ao mesmo. Como se a avaliação formativa fosse algo de novo. Ou como se uma metalinguagem fosse o mais importante. A este propósito, lembro a novidade das “rubricas” que surgiram para nomear o que já existia mas que levou muitos de nós a perder algum tempo a perceber o que eram.
    Ah, sim! As “rubricas”.

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    • Exatamente. Esta gente tem muito que aprender com os professores dos ensinos básico e secundários, desde logo, no saber estar.

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  3. Ainda gostava de perceber como é que 13 ou 20 valores como “classificação” se distingue de 13 ou 20 valores como “avaliação”. Ou como é que uma “avaliação” não se traduz numa escala que não seja classificatória, seja de 1 a 20, de 1 a 5 ou de 1 a 100. Podem enfiar a converseta de que o que importa é avaliar o progresso do aluno relativamente ao seu ponto inicial, e tendo em conta as suas capacidades, no sítio de onde parece que lhes saiu a cabeça. Alguma vez se consegue fazer um diagnóstico do potencial de um aluno sem colocar na equação o seu esforço? Se um aluno tem muitas capacidades e as subaproveita, trabalhando para um 10, o aluno que tem fracas capacidades, mil e uma adaptações, mas pouco se esforça merece um 10, esforçando-se o mesmo que o colega referido? Tudo isto são questões esotéricas…
    O que falta a esta gente é tomates. Se querem que não haja qualquer avaliação mas apenas certificados de frequência, então assumam-no. Mas preto no branco. Mas não é preciso que tudo seja dito explicitamente para que a gente perceba o que move esta gentalha: favorecer o negócio da educação. É que, mesmo que acabassem as avaliações quantativas, expressas numa pauta final, nem por isso o mercado do ensino superior e o mercado de trabalho deixariam de distinguir o trigo do joio, até porque o joio seria produzido em massa (nas escolas públicas).
    Peço desculpa por escrever ao correr da pena dos dedos pelo teclado.
    Parabéns ao Rui (com quem, por vezes, sou confundido) pelo texto.

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    • “Ainda gostava de perceber como é que 13 ou 20 valores como “classificação” se distingue de 13 ou 20 valores como “avaliação”

      Aqui tenho de discordar. A decisão por uma classificação (quantitativa) tem de englobar uma ponderação/avaliação de capacidades /atitudes demonstradas pelos alunos.

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  4. Esqueci-me: as “rubricas” são os conhecimentos, capacidades e atitudes que constam das Aprendizagens Essenciais para cada área disciplinar e constam dos Organizadores/domínios.

    Ou seja, numa LE, são:

    -produção e interacção orais
    – compreensão oral
    – compreensão escrita
    – rebeubeu…
    – competência intercultural
    -competência estratégica

    Que, por sua vez, foram simplesmente:

    – ouvir
    – falar
    – ler
    – escrever
    E mais outras coisas da “competência intercultural e estratégica” .

    Foi à pressa. Desculpem.

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  5. Caro Rui Ferreira
    Muito pertinente e lúcido o seu texto, que agradeço.
    É confrangedor (e triste) perceber a terraplanagem que este projecto faz de conhecimento pedagógico consagrado, no caso de conhecimento sobre currículo e avaliação. É desconcertante constatar a sua rápida disseminação (e, presumo, aceitação) no sistema. É preocupante antecipar as suas consequências no ensino e na aprendizagem.
    Cumprimentos,
    Maria Helena Damião

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