Um Apagão Pela Educação

A iniciativa, nascida nas redes sociais, pretende dar visibilidade e força a um protesto que até aqui tem vivido sobretudo de posições individuais: o ensino à distância decretado pelo Governo está a fazer-se por conta dos equipamentos dos profissionais da Educação. O ME não só não forneceu quaisquer recursos para o teletrabalho como nem sequer houve a dignidade, da parte dos seus responsáveis, de perguntar aos professores se não se importariam de assegurar o serviço educativo, a partir de casa, com os seus próprios meios. Algo que, como deveria ser óbvio, não têm obrigação de fazer. Também não está prevista qualquer compensação, ainda que simbólica, por esta requisição não assumida de bens privados para a prestação de um serviço público em estado de emergência. E aos professores que declararam não poder ou não querer emprestar o seu material, a resposta foi lacónica: venham então teletrabalhar para a vossa escola!

É neste contexto que surge a iniciativa de estimáveis colegas que, através de paralisações simbólicas, mas coordenadas, do E@D feito a partir de casa, pretendem evidenciar os frágeis alicerces em que assenta este ensino remoto onde a boa vontade e abnegação de quem ensina contrasta com a incompetência e a displicência de quem nada preparou para a eventualidade, mais do que previsível, de um segundo confinamento. Na base, um princípio inatacável: se são nossos os computadores e as ligações à internet, então eles só funcionarão se e quando nós quisermos…

Pessoalmente, não tenho dúvidas acerca da justeza dos princípios invocados. Mas já não estarei tão seguro da oportunidade e da eficácia de uma luta que arrisca dividir os docentes – algo que tem sido visível nas discussões nos grupos de professores – e não ser bem compreendida pela opinião pública. No entanto, divulgo com todo o gosto a iniciativa dos colegas e estarei atento às futuras concretizações, reacções e novos desenvolvimentos.

Um grupo de cidadãos, que exerce a profissão docente, apela aos restantes profissionais de educação, que estão em sua casa a usar, sem compensação, o seu próprio equipamento e condições técnicas para realizar ensino à distância, que adiram ao seguinte protesto, por agora, ainda só simbólico:

  • nos dias 18 e 19 de Fevereiro, quinta e sexta feira, desligar, pelas 9.15h, durante um período de 15 minutos, o equipamento de que são donos e suspender, nesse período, a colaboração com o disfarce de falta de preparação, que tem impedido a opinião pública de perceber que o ministro Brandão mente ao dizer que tudo corre bem e tudo estava preparado.
  • Na semana seguinte apelamos a passar a 2 períodos diários de desligamento de 15 minutos, em horas diferentes, ponderando, na semana a seguir, passar a 3 períodos e, assim sucessivamente.

Apelamos a que o protesto se mantenha até o governo perceber que tem de respeitar e agradecer aos professores a sua boa vontade e colaboração, que tem ajudado a que não se perceba, em nome dos alunos, o desgoverno na educação.

Este protesto, que é simbólico, e visa evitar o custo para os alunos do desligar total, que é legal e legítimo, pelos seus donos da infraestrutura digital do ensino à distância, também serve para que a comunicação social fale de todos os problemas da Educação, de alunos e de professores, num ângulo mais realista e menos desfocado pela propaganda frenética do ministro.

O protesto deve manter-se até o governo negociar com todas as organizações sindicais, em conjunto, os problemas que preocupam os professores e que se agravam de há 15 anos para cá: questões de salário e de respeito pela carreira, condições de trabalho, horários, aposentação, concursos, tratamento dos contratados, avaliação, falta de recursos para os alunos e más condições de trabalho para os assistentes operacionais, imagem pública da classe e sua degradação pelas mentiras junto da opinião pública.

O texto completo pode ler-se no post original. Para os interessados nos aspectos legais e formais deste protesto e esclarecimento de dúvidas, os organizadores prepararam um conjunto de FAQs de leitura fácil e esclarecedora, que pode ser descarregado daqui.

4 thoughts on “Um Apagão Pela Educação

  1. Caro A. Duarte

    #NoEntrudoPassaTudo

    A esta maria, que nem o seu nome sabe escrever, será permitido que coloque aqui uma ou duas ingénuas perguntinhas :
    Os senhores professores (alguns!! ) andam aflitíssimos com o rombo que o seu orçamento familiar pode sofrer face à iminência de terem ( ? ) de utilizar os seus zingarelhos durante uns dias (Deus me oiça ).
    Para todos ficarmos esclarecidos acerca do alcance de tão inesperada sobrecarga financeira, será indispensável fornecerem um “orçamento” através do qual quantifiquem – com muito rigor – a acrescida (acrescida, repito) despesa diária. Alguém, com seriedade, o poderá fazer ?
    ( não vale considerar os gastos com água, como já li .Os computadores trabalham a água, como o funicular do Bom Jesus, em Braga?).

    Deixaria para mais tarde outros “considerandos”.

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    • Eu vejo aqui um protesto, acima de tudo, contra a forma como o ME trata os professores, que há muito não são tidos nem achados na definição das políticas sectoriais que directamente lhes dizem respeito. E é esta atitude de desprezo e sobranceria que permite assumir que todo o professor tem em casa um computador razoável, uma internet de banda larga e tudo o mais que for preciso para o ensino não presencial. Que leva o ME a planear um ensino a distância contando com os recursos dos professores sem pensar sequer que os deveria pagar, ou requisitar ou, no mínimo, pedir-nos o favor de disponibilizar. Há aqui uma questão de princípio à qual sou sensível e que defendo sem reservas.

      Claro que, no reverso da medalha, vejo o esboçar de uma luta que não sei até que ponto será mobilizadora. Sobretudo para os professores que moram longe da sua escola e sabem bem que o que poupam nas viagens daria para comprar um computador novo todos os anos…

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  2. Mas nós professores, seja o rombo no nosso orçamento muito ou pouco, temos de financiar o ME e o sistema público de ensino? Não o financiamos já com os impostos? E os zingarelhos avariarem quem paga o arranjo ou um zingarelho novo? Ninguém se está a negar a usar o seu PC mas o ME deveria ter pedido autorização e planeado uma compensação!

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