Retrocesso digital

A imagem, que colhi no Quintal de Paulo Guinote, é exemplo levado ao extremo de uma tendência preocupante que parece estar a assolar muitas escolas, nesta semana de preparação do ensino não presencial, e que me deixa perplexo: a adopção de um modelo que privilegia as sessões síncronas com as turmas, obrigando a um regime de sessões contínuas e deixando muito pouco tempo para o trabalho autónomo dos alunos e para a preparação e avaliação de tarefas pelos professores.

É desolador constatar que, aparentemente, pouco ou nada se aprendeu com o primeiro confinamento, estando-se agora, em vez de tentar melhorar os aspectos menos conseguidos do ensino à distância, que todos reconhecemos ter tido muitas falhas e insuficiências, a cometer precisamente os erros que, na altura, se tentaram evitar.

O maior de todos esses erros é, sem dúvida, em vez de reconhecer as especificidades e limitações próprias do E@D, estar-se a alimentar a ideia de que o ensino à distância, sendo por natureza menos eficaz do que o presencial, decorrerá tanto melhor quanto mais emular a aprendizagem em sala de aula. E então transformam-se as aulas presenciais em aulas virtuais com a mesma duração e sequência que têm nos horários lectivos das turmas. Depois de tudo o que já se disse e escreveu sobre o assunto, não deveria ser necessário estar a explicar porque é que isto será, além de um completo disparate do ponto de vista pedagógico, também um verdadeiro martírio para alunos e professores.

De facto, para crianças até aos dez anos, 15 minutos consecutivos será o tempo máximo que conseguirão manter-se atentos em ambiente virtual. Entre os alunos mais velhos a capacidade de concentração aumenta, mas os elementos que podem induzir dispersão e distracção também são mais variados e apelativos. É pura ilusão pegar nos horários densos, construídos propositadamente para o ensino presencial em contexto de pandemia, com as disciplinas concentradas em blocos de 90 ou 100 minutos e os intervalos reduzidos ao mínimo e achar que se consegue replicar o mesmo modelo em ambiente virtual, mantendo os alunos atentos, a olhar para um ecrã, durante uma manhã ou uma tarde inteira.

E, no entanto, dizem-nos os manuais das boas práticas e diz-nos também a experiência de três meses de escola à distância, sessões curtas e focadas no essencial são mais eficazes do que longas prelecções num Zoom pejado de rectângulos pretos. Revisões de matérias, esclarecimento de dúvidas e apresentações de trabalhos, tudo com a participação activa dos alunos, resultam mais do que um despejar de matérias que, a determinada altura, já quase ninguém está a ouvir, muito menos a compreender.

O ensino à distância vive muito, tal como o presencial, do esforço e do compromisso de cada aluno na construção do seu conhecimento. Mas para isso é necessário tempo, entre as aulas ou depois destas, para ler o manual, pesquisar, responder a fichas ou exercícios, produzir textos e outros trabalhos. Não deixa de ser irónico que o construtivismo, que tanto se tem promovido como filosofia de base das novas flexibilidades curriculares, esteja a ser liminarmente descartado no contexto da aprendizagem à distância, onde pode fazer todo o sentido.

Tal como sucedeu no ano anterior, a insistência em aplicar estratégias da sala de aula que não funcionam no ensino à distância só se poderá traduzir no paulatino afastamento dos alunos com menor motivação e maiores dificuldades, sem que haja propriamente ganhos para os restantes. Alimentar o mito de que uma escola com muitos tempos lectivos é necessariamente mais exigente apenas aumentará o fosso entre os que conseguirão corresponder a essa exigência e os que ficarão para trás.

Não sabemos ainda quanto tempo irá durar este confinamento escolar, mas percebe-se que, nos moldes em que está a ser planeado, contribuirá para aumentar o insucesso escolar. Ou, o que vai dar ao mesmo, um insucesso real transformado em sucesso fictício, funcionando as avaliações finais, tanto internas como externas, como um verdadeiro bodo aos pobres. Tal como sucedeu no ano passado.

7 thoughts on “Retrocesso digital

  1. O ensino privado não está com esses pruridos: é tudo igual ao presencial.

    Deixar os alunos a trabalhar sozinhos, etc., não resulta com imensos, pois sentem-se perdidos, têm muitas dúvidas e acabam por nada aprender.

    É a experiência que tenho do ano passado e deste também. Foram os próprios alunos, em várias turmas, a rogar que fosse tudo presencial. Precisavam de ter o professor ali, presente.

    Gostar

  2. Totalmente de acordo, António Duarte.

    Querer fazer do E@D uma réplica do ensino presencial é estúpido.
    Hoje só me apetece dizer palavrões. E, para não chocar , fico-me pelo estúpido.

    Gostar

  3. A estupidez humana é mesmo ilimitada.
    Ao sujeito responsável pelo horário, ao estúpido, sugeria-lhe uma leitura aturada sobre o fenómeno. Como sei que é incapaz de o fazer (porque não o fez antes de executar), desejo-lhe felicidades para a sua vida.
    Já à tutela da educação, não! Ao estúpido deve ser-lhe assacada a responsabilidade de incumprir num dos seus deveres preconizados em sede de ECD, a saber:
    1. É um dever específico do Diretor, artigo 29.º do Regime de Autonomia, Administração e Gestão vigente, aprovado pelo Decreto-Lei n.º 75/2008, de 22 de abril, com as alterações do Decreto-Lei n.º 137/2012, de 2 de julho, alínea a) Cumprir e fazer cumprir as orientações da administração educativa;
    2. As orientações da administração educativa, concretamente da DGE referem na sua página 2, n.º 1, alínea b) A diversificação de metodologias ao longo de cada aula, estimulando-se a atenção, o trabalho individual e em pares e acautelando-se o recurso excessivo a métodos unidirecionais, …
    Enquanto assim não for, a situação irá continuar. E como os filhos da ignorância são capazes de produzir formas mais sedutoras de ignorância, já se vê no que vai dar. Aliás, já chegamos aqui neste veículo.

    Gostar

  4. O argumento da atenção aplica-se ao regime presencial: também não conseguem ficar mais de 15 mins.
    No entanto, fizeram-se blocos letivos de 90 mins há muitos anos atrás e deixou-se ficar assim. Não é a duração do bloco letivo mas a metodologia pedagógica da aprendizagem: não vão poder usar o expositivismo (online e presencial). Também no regime presencial a aula é preparada para que haja diversificação de atividades de modo a ir captando a atenção; terão de fazer o mesmo online, utilizando momentos para trabalho autónomo.
    Mas o online tem uma vantagem que ninguém destacou: enquanto no presencial um grande problema são os alunos indisciplinados que vão perturbando a aula (pois os seus comportamentos afetam os colegas que estão a trabalhar), no regime online essa perturbação não ocorre pelo que os outros alunos que estão envolvidos na aula têm um melhor ambiente, não sendo necessário interrupções para advertências.

    Gostar

  5. Isso não é bem o que parece. A nossa escola recomenda períodos curtos de aula síncrona seguidos de aula assíncrona para resolver tarefas e depois mais aula síncrona para tirar dúvidas e atender dificuldades. Porque é que há tanta vontade de chatear quando todos fazem o melhor duma situação que, para já, não tem outra saída?

    Gostar

    • Até concordo, e é mais ou menos isso que estou a tentar fazer.

      Uma coisa que notei no primeiro confinamento foi a grande dificuldade de muitos alunos em gerir o tempo e as diversas tarefas pedidas, em regime assíncrono ou de trabalho autónomo, pelos vários professores.

      Mas também noto que o que descreve não é, em bom rigor, trabalho assíncrono: estão todos os alunos e o próprio professor envolvidos, em simultâneo, na mesma tarefa. Claro que, se funcionar, a discussão em torno de terminologias e os conceitos passa a ter um interesse muito secundário…

      Gostar

Comentar

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.