Lógica complicada

Se tens Cristo no palco podes dar espetáculos. Mas se tens palco mas não tens corpo de cristo não podes.

Se tens corpo de cristo e queres ir encher não podes mas podes ir encher saco para o super.

Podes comprar um mil-folhas no super mas não um livro com folhas.

Ao contrário do primeiro confinamento, logo assumido pela generalidade da população como uma inevitabilidade face ao aumento dos contágios e à necessidade de conter a pandemia antes de um previsível colapso dos sistemas de saúde, a versão 2.0 do mesmo, revista e aligeirada, não parece estar a suscitar o mesmo empenhamento cívico.

Desde logo, pela inconsistência e arbitrariedade das medidas. É certo que se acabam os horários ridículos de funcionamento das lojas e serviços e as confusas regras por concelho, em favor de regras mais gerais e perceptíveis. Mas é difícil compreender que se possa ir à missa mas não ao teatro. À raspadinha mas não ao cabeleireiro. À drogaria mas não à livraria. Que os restaurantes fechem mas as cantinas escolares permaneçam abertas. Que os ATL no interior das escolas – incluindo as escolas privadas – possam funcionar, mas não os que ficam fora das escolas..

Acima de tudo, parece-me muito difícil que o cidadão comum interiorize a necessidade de um confinamento rigoroso – ficar em casa sempre, saindo apenas por razões permitidas e de força maior – quando os seus filhos passam o dia inteiro, desconfinados, na escola.

A verdade é que na grande maioria das escolas não se cumprem distanciamentos, não há mesas individuais nem separadores em acrílico, as salas têm a lotação completa e não são arejadas como deve ser porque está muito frio. Ora se sucede tudo isto e os políticos de diversos quadrantes, secundados pelas autoridades de saúde, nos dizem que é seguro, então o que é inseguro?

Depois do desconfinamento irresponsável que faz já de Portugal um dos países europeus com mais casos e maior mortalidade devido à covid-19 – e a outras doenças que, por causa da pandemia, não são devidamente prevenidas e tratadas – o pior que nos poderia acontecer agora seria um confinamento a fazer de conta. Esperemos que não seja isso mesmo o que temos aí.

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