Confinar, mas pouco…

“Vamos manter a escola em funcionamento. Esta é a única, nova e relevante excepção” à ordem geral de confinamento decretada esta terça-feira. O anúncio feito pelo primeiro-ministro, António Costa, cumpre com aquele que, desde a semana passada, se sabia ser o desejo do Governo: manter as aulas presenciais em todos estabelecimentos de educação, das creches ao ensino superior. Também os ATL continuam em funcionamento. A “responsabilidade” exige medidas adicionais nas escolas, consideram os directores das escolas públicas.

A decisão do Governo significa que cerca de 2,5 milhões de pessoas vão continuar a entrar diariamente nos estabelecimentos de educação – há dois milhões de alunos inscritos em todo o sistema de ensino, do pré-escolar ao ensino superior, aos quais se juntam também professores e funcionários. A esta equação é preciso adicionar também os pais. Há perto de 650 mil crianças com idades até aos dez anos (pré-escolar e 1.º ciclo), alunos com menos autonomia nas deslocações para os estabelecimentos de ensino.

A ligeireza com que se excluiu do confinamento todo o sector da Educação significa que, na prática, um quarto da população portuguesa irá continuar a deslocar-se quotidianamente, contribuindo para a propagação da pandemia. É uma jogada arriscada, pois irá certamente condicionar uma descida mais lenta da taxa de transmissões. E poderá enterrar definitivamente o mito de que as escolas são lugares seguros, onde não há surtos e os contágios são raros.

Não é difícil aceitar os argumentos a favor da escola presencial, embora se deva sublinhar, como muito bem faz Paulo Guinote, a profunda incoerência entre a retórica ministerial, construída em torno dos “saberes do aluno” e do conhecimento “na palma da mão” – ou seja, uma pedagogia que despromove o professor a mero “facilitador” das aprendizagens – e este papel, afinal fundamental e imprescindível, que agora se quer devolver ao professor e à aula tradicional.

O que é inaceitável é que se sujeitem as comunidades escolares a riscos acrescidos sem que sejam equacionadas as necessárias contrapartidas. Relembre-se que numa sala de aula não há, em regra, distanciamento físico adequado nem, nestes meses frios de Inverno, ventilação suficiente. No primeiro ciclo e na educação pré-escolar ainda pior, pois os miúdos nem sequer usam máscara. Atirados por opção política para a linha da frente, os professores deveriam estar também entre os grupos prioritários para, a seguir aos profissionais de saúde, receberem a vacina anti-covid. Contudo, confrontado com esta evidência, o primeiro-ministro que declara a opção política de manter as escolas abertas, mostra-se incapaz de assumir o mesmo critério relativamente à protecção dos profissionais da educação: essa é uma “questão técnica” sobre a qual não se quer pronunciar…

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