Decisão política

Numa altura em que o Governo se prepara para fechar o país, realizou-se mais uma reunião com os peritos em saúde pública, no Infarmed. O primeiro-ministro anunciou no final as principais conclusões: houve um consenso para que as medidas “tenham um horizonte de um mês e com um perfil no início da pandemia”, ou seja, Março e Abril. A divergência esteve na questão das escolas. Fora de causa está a interrupção da avaliação que decorre no ensino superior – até porque nessa fase os alunos “fazem menos deslocações”, explicou depois o socialista José Luís Carneiro – e “nada justifica fechar as escolas até aos 12 anos”. Mas se estes são pontos de certeza, a incerteza está em torno do que fazer à escola para os alunos acima dos 12 anos. Aqui houve uma “divergência particularmente viva” entre os peritos e, por isso, a decisão será política depois de ouvidos também os responsáveis do sector da educação.

A Educação é há muito uma área secundária da governação, habitualmente arredada das grandes discussões políticas. No entanto, quando os números da pandemia batem todos os recordes e se prepara apressadamente um novo confinamento, o fecho das aulas presenciais assume-se como o grande pomo da discórdia entre políticos e especialistas de saúde pública.

Não por acaso, um dos maiores defensores do não confinamento das escolas é o ministro da Educação: Brandão Rodrigues sabe bem que quase nada foi feito, pelo ministério que incompetentemente dirige, para preparar um retorno ao ensino à distância em condições substancialmente mais favoráveis do que as do ensino remoto de emergência que vigorou em 2020. Com uma política educativa inconsistente, permeável a lobbies e a jogos de influência, replicando de forma inconsequente a agenda da OCDE e incapaz de ouvir e motivar as escolas e os professores, o actual ME acumula desaires, sendo as recentes descidas nos rankings das avaliações internacionais apenas o seu resultado mais visível. Por esse motivo, querem os alunos na escola, com muitas aulas, tutorias, mentorias e “recuperações de aprendizagens”, pois percebem que nada disto funciona no ensino à distância.

Do outro lado, mesmo dando de barato que as escolas são, ou tentam ser, lugares seguros, que as regras sanitárias se vão ali cumprindo, apesar de tudo, bem melhor do que noutros lugares e que as crianças adoecem e contagiam menos do que os adultos, percebe-se que o quotidiano escolar, que não se cinge às salas de aula ou aos rituais da desinfecção de mãos, é feito de riscos: os miúdos aproximam-se, tocam-se, retiram com frequência as máscaras para comer ou beber, misturam-se nas entradas e saídas dos edifícios escolares, viajam nos mesmos autocarros, frequentam juntos a cantina. Para muitos, a ida para a escola é também pretexto para a saída de casa, em descontraído desconfinamento, dos respectivos pais.

Na busca de um meio termo, vai fazendo caminho a ideia de um confinamento parcial, mantendo a escola presencial para a educação pré-escolar e os seis primeiros anos de escolaridade e remetendo os mais velhos, supostamente mais autónomos e capazes de ficar sozinhos em casa, para o ensino não presencial. Mas mesmo aqui não há consenso. Sem que nem os técnicos nem os governantes se entendam, a decisão final será puramente política. O que não é inédito, sublinhe-se. No primeiro confinamento, a decisão de fechar as escolas foi tomada à revelia do parecer dos especialistas, que se tinham pronunciado na véspera contra o confinamento escolar. Dessa vez, a coragem e o faro político de António Costa levou-o o tomar a decisão certa, a que permitiu a Portugal enfrentar com relativa serenidade a primeira vaga da pandemia, sem o impacto que teve em países próximos como Espanha ou Itália. Agora a situação é bastante pior, mas ainda vamos a tempo de, com decisões difíceis, mas ponderadas e corajosas, conter a pandemia.

Comentar

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.