A cartilha do Holocausto

O Ministério da Educação enviou para as escolas “Recomendações para o Ensino e Aprendizagem sobre o Holocausto” que permite conservar a memória, mas também “prevenir a intolerância para com o outro”. A Direção-Geral da Educação traduziu para português o manual que agora pode ser utilizado por professores e educadores no ensino do tema do Holocausto. O documento já foi enviado para as escolas, anunciou hoje a tutela num comunicado enviado para as redações.

Este manual é mais um instrumento que serve para “fomentar a memória do Holocausto, promover a prevenção e o combate a todas as formas de discriminação, antissemitismo, xenofobia, racismo, homofobia e outras de desrespeito pela dignidade humana”, sublinha o ME.

Como professor de História, dispenso bem o desvelo paternalista com que o ME pretende instruir os professores portugueses na arte de bem ensinar o Holocausto. Uma matéria que consta, há décadas, dos programas da disciplina, integrada no tema mais vasto da afirmação dos fascismos europeus e da II Guerra Mundial.

Mais: não me agrada esta cedência ao lobby do sionismo internacional e da indústria do Holocausto, na forma de directrizes para fazer a abordagem politicamente correcta do tema, pondo em causa, como quem não quer a coisa, tanto a sua integração curricular como a autonomia pedagógica dos professores no seu tratamento.

Aqui é altura de abrir um parêntesis para recordar que este e outros temas já não se incluem apenas na disciplina de História. Fazem também parte da Educação para a Cidadania, e aqui podem ser tratados por professores de qualquer disciplina. Ora uma das utilidades destas transversalidades curriculares, leccionadas por docentes que não dominam cientificamente todos os temas a tratar, é precisamente tornar os professores menos autónomos e mais inseguros – e como tal, mais receptivos à aplicação do que consta nos referenciais e nos guiões governamentais.

E por aqui chegamos ao cerne da questão: o ministério que quer incentivar o estudo do Holocausto e de outros temas que promovam a paz, a tolerância e o respeito pelos direitos humanos é o mesmo que diminui o tempos lectivos da disciplina de História. Ausente do currículo da esmagadora maioria dos alunos do Secundário, reduzida a uma presença de 90 ou 100 minutos semanais na maioria dos anos do 3.º ciclo, a História que hoje se consegue ensinar e aprender fica muito aquém dos ambiciosos programas e objectivos que se estabelecem para a disciplina. Haverá tempo para debitar uns temas avulsos, ao sabor das modas, dos lobbies e das cartilhas ministeriais, mas não para desenvolver o pensamento estruturado e o raciocínio crítico que dão verdadeiro valor e utilidade à História. Se calhar, é mesmo isso o que se pretende…

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