Leituras: A estrela dos reis magos

Uma estrela singularmente brilhante conduziu alguns feiticeiros do Oriente para o presépio. No entanto, os cálculos astronómicos indicam que nenhuma estrela se destacou por aqueles dias. Como se explica isso? É uma falha dos Evangelhos? Não, claro que não: os Evangelhos, como a Palavra revelada, não podem conter erros.

Talvez Mateus tenha concedido a si próprio uma licença meramente literária (inspirada por Deus, claro) e introduzido a estrela na história para a embelezar. Os velhos do lugar recordariam a passagem do cometa Halley no ano 12 e os prodígios que o acompanhavam.

Na Antiguidade era comum associar o aparecimento de uma estrela brilhante ao nascimento de um grande homem (Alexandre o Grande, Júlio César, Herodes…) ou a um acontecimento de grande importância (a fundação de Roma, a queda de Jerusalém…).

A chave é, como sempre, a necessidade de ajustar o nascimento divino a uma profecia do Antigo Testamento. A estrela descrita no Evangelho de Mateus recordaria aos leitores judeus outra estrela bíblica relacionada com a profecia messiânica: “De Jacob avança uma estrela, um ceptro ergue-se de Israel” (Num. 24,17).

[…]

O facto é que os crentes ofereceram todo o tipo de explicações, cada qual mais natural e atraente: foi um cometa, foi uma conjunção de planetas, foi simplesmente um milagre …

Johannes Kepler, o autor dos cálculos das órbitas planetárias em torno do Sol, observou, em 1604, uma tripla conjunção (repetida três vezes) de Júpiter-Saturno, capaz de produzir o efeito da estrela. Como o fenómeno acontece a cada oitocentos e cinco anos, isto significa que ocorreu por volta do ano -7, o ano provável do nascimento de Jesus. Na tradição judaica, esta conjunção tinha anteriormente marcado o “ano de Moisés”, o libertador do povo de Israel. O paralelo com Jesus, o novo Moisés, é evidente.

Outros autores formularam várias teorias para identificar a estrela de Belém. Foi mesmo salientado que poderia ser uma nova ou uma supernova. Esta hipótese é apoiada por testemunhos coreanos e chineses da dinastia Han sobre as luzes celestiais vistas nessas regiões por volta da época do nascimento de Jesus.

O Evangelho de Mateus chama aos Reis Magos magoi, ou seja, “astrónomos, sábios ou magos”. De onde é que eles vieram? Se fossem astrónomos (ou seja, astrólogos) poderiam ter vindo da Mesopotâmia ou da Pérsia, mas os presentes que trouxeram ao Menino Divino, ouro, incenso e mirra, parecem indicar que vieram da Arábia. Talvez fossem caravaneiros de Sheba e Madian.

Concordemos nisto: eram caravaneiros árabes que foram surpreendidas pelo anúncio da estrela na Pérsia, negociando as suas mercadorias, e se disseram: “Temos de regressar pela rota da costa para adorar o Deus Menino”. Quando há boa vontade, até mesmo o hipercriticismo suspende a sua atitude habitualmente agressiva.

O tempo acrescentou pormenores: os Magos de Mateus são chamados “Reis” a partir do século II (talvez porque o incenso está associado à realeza nos Salmos); São Jerónimo (século IV) assegura que chegaram em dromedários, animais mais úteis que belos “que podem percorrer num dia o que um cavalo faz em três”.

No início, o número de mágicos variava de dois a doze. Só a partir do século VI é que o número é fixado em três, Melchior, Gaspar e Baltazar, para os fazer coincidir com o número de presentes que trouxeram ao Menino. Ainda não é dito que Baltazar era negro. Num texto medieval irlandês lemos: “O primeiro foi […J um ancião de cabelo branco e barba comprida. O segundo […] um imberbe de tez rosada […]; o terceiro, escuro e com a barba fechada”.

Juan Eslava Galán, El Catolicismo Explicado a las Ovejas, 2010.

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