Leituras: A escola da ignorância – II

No post anterior ressalva-se a necessidade de preservar, no ensino massificado que melhor se ajusta às economias globalizadas do século XXI, nichos de qualidade que permitam a reprodução das elites políticas e económicas. Contudo, para a grande massa da população, bastarão os conhecimentos práticos, ou nem isso: a educação “inovadora” ou “para a cidadania” pode ser apenas uma forma pouco sofisticada de cultivar a ignorância…

Quanto às competências técnicas médias – a Comissão Europeia estima que têm “uma esperança de vida de cerca de dez anos, e que o capital intelectual se desvaloriza uns 7% por ano, o que está associado a uma redução correspondente na eficiência laboral” – o problema é um pouco diferente. Em suma, é uma questão de conhecimento descartável, tão descartável como os humanos que o detêm temporariamente, na medida em que, sendo baseado em competências de rotina e adaptado a um contexto tecnológico preciso, deixa de estar operacional assim que o seu próprio contexto é ultrapassado. No entanto, desde a revolução da informação, estas são competências que, de uma perspectiva capitalista, apenas apresentam vantagens. Um conhecimento utilitário e natureza principalmente algorítmica, ou seja, que não requer necessariamente nem a autonomia nem a criação do utilizador, é um conhecimento que, em condições extremas, pode ser aprendido sozinho, ou seja, em casa, em frente de um computador com o programa educativo correspondente. Em geral, no caso de competências intermédias, graças à utilização do ensino à distância multimédia, a classe dominante será capaz de matar dois coelhos de uma cajadada. Por um lado, as grandes empresas (Olivetti, Philips, Siemens, Ericsson, etc.) estarão destinadas a “vender os seus produtos no mercado da educação contínua regido pelas leis da oferta e da procura”. Por outro lado, dezenas de milhares de professores (sabe-se que o seu financiamento representa a maior parte das despesas do orçamento da educação) serão transformados em algo completamente inútil e poderão assim ser despedidos, o que permitirá aos Estados investir a factura salarial economizada em operações mais rentáveis para as grandes empresas internacionais.

Evidentemente, os mais numerosos permanecem; aqueles que o sistema pretende manter desempregados (ou empregados de forma precária e flexível, por exemplo, nos vários empregos-lixo) em parte porque, de acordo com os termos escolhidos pela OCDE, “nunca constituirão um mercado lucrativo” e porque a sua “exclusão social se tornará mais aguda à medida que os outros continuarem a progredir”. É aqui que o tittytainment terá de encontrar o seu nicho. Efectivamente, é óbvio que a custosa transmissão de conhecimentos reais, e portanto críticos, bem como a aprendizagem de comportamentos cívicos básicos ou mesmo simplesmente a promoção da rectidão e honestidade, não têm qualquer interesse para o sistema. De facto, em certas circunstâncias políticas, podem mesmo constituir uma ameaça à sua segurança. Obviamente que é nesta escola que a ignorância em todas as suas formas possíveis deve ser ensinada. No entanto, esta não é uma tarefa fácil e, até agora, para além de alguns progressos, os professores tradicionais não foram adequadamente formados a este respeito. A escola da ignorância exigirá a reeducação dos professores, ou seja, forçando-os a “trabalhar de forma diferente”, sob o despotismo iluminado de um exército poderoso e bem organizado de especialistas em “ciências da educação”. Obviamente, a tarefa fundamental destes peritos será a de definir e impor (por todos os meios à disposição de uma instituição hierárquica para assegurar a submissão daqueles que dela dependem) as condições pedagógicas e materiais do que Debord chamou de “dissolução da lógica”: por outras palavras, “a perda da possibilidade de reconhecer instantaneamente o que é importante e o que é acessório ou deslocado; o que é incompatível ou, pelo contrário, o que poderia ser complementar; tudo o que tal consequência implica e o que, ao mesmo tempo, impede”. Debord acrescenta que um estudante formado desta forma se encontrará “desde o início, ao serviço da ordem estabelecida, mesmo que a sua intenção possa ter sido absolutamente contrária a este resultado”. Na essência, ele conhecerá a língua do espectáculo, já que é a única com a qual estará familiarizado: a língua com a qual terá sido ensinado a falar. Sem dúvida que quererá mostrar-se inimigo da sua retórica, mas usará a sua sintaxe.

[…]

Naturalmente, os objectivos atribuídos ao que resta da escola pública pressupõem uma dupla transformação decisiva a mais ou menos longo prazo. Por um lado, haverá uma transformação dos professores, que terão de abandonar o seu estatuto actual de sujeitos supostamente detentores de um saber, para se tornarem animadores de diferentes actividades de valor ou transversais, saídas pedagógicas ou fóruns de discussão ( evidentemente concebidos de acordo com o modelo dos programas de debate televisivo); para que a sua utilização seja rentável, serão também estes animadores os encarregados de diferentes tarefas materiais ou de reforço psicológico. Por outro lado, a escola tornar-se-á um espaço vivo, democrático e alegre, ao mesmo tempo um viveiro de cidadania – onde a animação das festividades (aniversário da abolição da escravatura, nascimento de Victor Hugo, Halloween…) poderá estar a cargo das associações de pais mais desejosos de se envolverem, com a rentabilidade que isso implica – e um local liberalmente aberto a todos os representantes da cidade (militantes de associações, militares reformados, homens de negócios, malabaristas ou faquires, etc.) ) bem como todos os bens tecnológicos ou culturais que as grandes marcas, convertidas em parceiros explícitos do “acto educativo”, consideram apropriado vender aos vários participantes. Penso também que surgirá a ideia de colocar alguns dispositivos electrónicos muito simples na entrada deste grande parque de diversões escolares para detectar a possível presença de objectos metálicos.

Jean-Claude Michéa, La escuela de la ignorancia y sus condiciones modernas, Madrid, 2002.

3 thoughts on “Leituras: A escola da ignorância – II

  1. Grato caro António Duarte por trazer tal assunto.
    Deixemo-nos, pois, de reagir a tudo aquilo que nos desvia do essencial, já por si só desenhado para o efeito.
    Na senta do assunto tratado permita-me um contributo:
    Em 1988, em comentários sobre a sociedade do espetáculo, Debord reconhece um novo tipo de poder, o integrado que assenta nos seguintes aspetos:
    1. a incessante renovação tecnológica – que consiste numa entrega do sistema a um corpo de especialistas;
    2. a fusão económico-estatal – que possibilita maiores ganhos tanto para grupos privados quanto para os Estados;
    3. o segredo generalizado – aquilo que está por detrás do espetáculo e nunca aparece;
    4. a mentira sem contestação – com a extinção da verdade não há mais como formar a opinião pública;
    5. a perpetuação do presente – pela abolição do conhecimento histórico, de forma geral, e de todas as informações e comentários contundentes de um passado.
    Ora, para que este esquema possa levar o seu rumo, a escola tradicional (de matriz histórico-cultural com provas dadas na educação de qualidade) torna-se um empecilho que convém desfigurar para as massas, deixando-a apenas ao dispor da burguesia dominante. É daqui que vem toda a mediocridade que ouvimos hoje como importante desenvolver na escola: flexibilização, cidadania, metodologias ativas, modernidade digital, escola do futuro, perfil do aluno, aprendizagens essenciais, etc.
    Bom Ano.

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