Uma greve a destempo

Escolas a funcionar a “meio gás” e algumas sem aulas são consequências no Alentejo da greve de docentes que hoje decorre no país, revelou o presidente do Sindicato dos Professores da Zona Sul (SPZS)

Ainda sem dados para um balanço definitivo, percebe-se no entanto que foram fracos os números da adesão à greve nacional convocada, para o dia de hoje, pela Fenprof. Significativamente, os sindicatos não adiantam percentagens e preferem referir casos isolados de escolas fechadas, quase sempre do primeiro ciclo ou jardins de infância. A verdade é que, por muito que se diga que os professores queriam esta greve e que isso ficou expresso na consulta feita online há umas semanas atrás, essa vontade colectiva não é nada óbvia para quem frequenta a sala de professores ou os grupos de docentes nas redes sociais. E uma coisa é dizer, em jeito de desabafo, que os sindicatos deveriam convocar uma greve. Outra, bem diferente, é dispormo-nos a fazê-la.

Torna-se evidente que houve, da parte da Fenprof, pelo menos dois erros estratégicos na marcação desta greve. Um deles foi o péssimo timing escolhido: a uma semana do final do período, depois de duas semanas em que as escolas andaram, com feriados e tolerâncias de ponto, a trabalhar a meio-gás. Muitos professores sentem-se pressionados pelo tempo para concluírem matérias, actividades e avaliações e a última coisa que desejam, nesta altura, são mais paragens no trabalho escolar.

Outro erro, a meu ver mais grave, foi a marcação de uma greve sem um objectivo claro e mobilizador. Entre as motivações desta greve, o habitual caderno reivindicativo – carreira, tempo de serviço, quotas na avaliação do desempenho, regime especial de aposentação – passou para segundo plano. A reivindicação principal é a exigência básica de que o ME aceite reunir, como é próprio das regras democráticas, com os representantes sindicais. Não digo que não seja uma reivindicação justa e necessária. Pelo contrário, a existência de contactos regulares e de reuniões negociais é uma condição essencial para que os problemas da classe comecem a encontrar solução. O que me parece é que esse é um objectivo que, dizendo muito aos dirigentes que se sentam à mesa das negociações, significa muito pouco para a generalidade dos professores.

Além do sentimento generalizado de desânimo e descrença, quem tem acompanhado o desenrolar dos processos negociais dos últimos anos sabe que eles se têm assemelhado mais a um diálogo de surdos, com o ME a impor a sua vontade em tudo aquilo que considera importante e a ignorar ou adiar os inúmeros problemas, dificuldades e constrangimentos sentidos pelos professores. Neste contexto, receber os sindicatos apenas para cumprir uma mera formalidade, sem o mínimo de vontade ou boa fé negocial, seria o mesmo que chover no molhado. E, claro, não parece razão suficiente que justifique uma greve.

Perante uma greve frouxa e inconsequente, os inimigos da Fenprof – e há-os até entre os próprios professores, como se sabe – irão rejubilar. Só que este desaire, fruto da precipitação – os dirigentes sentiam necessidade de fazer alguma coisa, mas não deram com a coisa certa que haveria a fazer – acaba por ser prejudicial para os professores. A classe dá ao país uma ideia de resignação, aceitando passivamente as imposições do Governo – as que vinham de trás e as novas que, a pretexto da pandemia, recaíram sobre as escolas e os professores. Parece consensualizar-se a noção de que em tempo de guerra ao vírus não se fazem reivindicações laborais. E se devem aceitar todos os sacrifícios, mesmo aqueles que claramente não se justificam. Ora este é claramente, para os professores, um jogo perigoso, que pode contribuir para uma deterioração ainda maior das suas condições de trabalho. E pôr em causa tudo o que conseguiram, ao longo de décadas, em termos de carreira e estatuto profissional.

3 thoughts on “Uma greve a destempo

  1. Muito boa análise. Apesar da falta de acerto na estratégia e na definição do caderno reivindicativo (e o problema mais grave é mesmo, como referido, colocar como condição para evitar esta e futuras greves a simples a aceitação por parte do Ministério de receber e falar com os sindicatos, em vez de se exigir, também, o cumprimento de uma, pelo menos uma, reivindicação de fundo), repugna-me o espírito de complacência e de alunos-e-aulas-e-avaliações-acima-de-tudo dos docentes. Pela minha parte, fiz greve sobretudo para não hipotecar futuras lutas.

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    • Divulguei, embora não de uma forma propriamente entusiástica.

      Embora com dúvidas sobre a sua eficácia, não questiono a justeza dos objectivos, que contudo não foram suficientemente mobilizadores, nem o momento o mais oportuno.

      Contudo, o sucesso ou insucesso das greves não é ditado pelos sindicatos, muito menos pelos bloggers: são os trabalhadores, neste caso os professores, que decidem o que devem fazer.

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